
Pouco passava das 21h00 quando a banda subiu ao palco, ainda muito bem recebida pelas palmas de adolescentes e adultos descontraídos, mais do que prontos para duas horas de espetáculo. Atrás do ensemble de músicos, morava uma grande tela, onde seria projetada a obra cinematográfica "Il Deserto Rosso", do cineasta italiano Michelangelo Antonioni. Este filme de 1964, premiado com um Leão de Ouro no XXV Festival de Cinema de Veneza, foi o primeiro a cores realizado por Antonioni e recebeu,pela primeira vez, naCasa da Música, uma banda sonora a cargo dos Jazzanova.
Começam, então, os primeiros acordes e, com eles, a fusão de sonoridades jazz e house music, paisagens industriais carregadas de tons cinza, de dúvidas existenciais, de planos arrepiantes. A música encaixa na perfeição. A alienação da protagonista Guiliana, interpretada por Monica Vitti, acontece durante o aparecimento dos tempos modernos, a par de uma abordagem musicalatualcriada pelos DJs e produtores alemães presentes em palco.
Mas, entre a apresentação deste clássico do cinema italiano e o ambiente sonoro dos Jazzanova, houve alguma coisa que não bateu certo. Talvez o público presente tivesse expetativas diferentes em relação ao concerto, à dinâmica da apresentação... O que é certo é que este foi abandonando a sala no decorrer do espetáculo. Na verdade, pedia-se do espetáculo mais música e menos diálogos entre personagens, que obrigavam, de certa forma, a uma tolerância arrojada e contextualizada do que é o cinema dos anos 60.
Ao todo, foram tocados seis ou sete temas - alguns repetidos por entre as cenas com barcos, rios poluídos e episódios de insanidade mental vividos por Guiliana -, que vinham confrotar e cortar o sentimento de isolamento e solidão que passava da tela para a sala, ainda que sem muito êxito.
Após três álbuns ecléticos e de excelência musical, sendo o mais recente "Funkhaus Studio Sessions", aquela que foi a quarta visita dos Jazzanova a Portugal não podia ter tido uma receção mais desmotivante por parte da audiênca portuense. Para um povo que atravessa tempos difíceis, a nível social, económico e até cultural, esta não foi a melhor proposta para o início do fim de semana. Bocejos, olhares tristes edesapontados, passos que se arrastavam foram a consequência de um concerto em que o génio berlinenses não bastou para fazer magia.
Texto: Sara Fidalgo
Fotografia: Marta Ribeiro
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