Marissa Nadler apresentou-se no domingo em Lisboa, na Galeria Zé dos Bois, no Bairro Alto, com o mais recente disco "July", depois de ter marcado presença, no dia anterior, no Amplifest, no Porto. Ainda que já tenham passado três meses desde então, nada como "Julho" para iniciar o mês de outubro.

Não é fácil desconstruir Nadler, muito menos perceber as suas faces. A verdade é que testemunhámos uma metamorfose em palco, com o início de cada música. A hora passada no interior do aquário da ZDB foi como percorrer um limbo: um misto entre a leveza da voz quase que angelical e o peso e dor das fortes letras. Um abalo emocional, um travo agridoce e uma mudança de estados de espírito tão subtil que nos deixa desnorteados.

O escuro do aquário, numa noite de cortinas fechadas, contrasta com a presença de Marissa, que aparece em palco reservada e sem grandes palavras, vestida de branco, refletindo a pouca luz da sala. Trata logo de pegar numa das suas três guitarras acústicas, alinhadas em palco, amigas que trata por tu e que lhe dão a confiança para mudar de pele. Começa então um ritual de tira-guitarra-pousa-guitarra-liga-cabo-desliga-cabo, uma dança e uma roda delicada que não conseguimos deixar de seguir com o olhar, a cada movimento. “1923”, com Janel Leppin no violoncelo, tratou logo de ecoar pela sala, como só a folk o sabe fazer, com melodias cheias de textura, sonoridades integrais e completas, uma simplicidade de voz, guitarra, violoncelo ou piano à qual não falta nada e a qual não queremos de forma alguma perturbar, como se de uma porcelana frágil se tratasse.

Somos então puxados pelo braço para as misteriosas introspeções de Marissa, uma intrusão premeditada e desejada. Siderados, deixamos entrar “Dead City Emily” e outras faixas de “July”, como “Was it a dream” e “Anyone Else”, que fazem da nossa alma refém.

E se “Drive” nos levou numa viagem de final de verão, intensa, carregada de recordações, uma fuga sem destino certo, com o vento a bater-nos na cara, “Firecrackers” fez-nos querer largar tudo e apenas contemplar aquele dedilhar de cordas e as notas mais agudas, sentindo os arrepios, a textura da pele de galinha e os pelos dos braços eriçados.

Em “I’ve got your name”, Marissa abandonou as guitarras. A voz e o piano encarregaram-se, então, de conferir a fragilidade necessária, com Nadler, no meio do palco, especialmente vulnerável, recorrendo às pontas do vestido para dedilhar as notas imaginárias do ar no tecido. “We are coming back” chegou, depois disso, dramática e com memórias de infância - uma catarse pessoal intensa e, para nós, um dos momentos mais marcantes.

Apesar de ter sido este último registo a motivar esta passagem de Marissa por Portugal e a dar-lhe mais projeção junto do público, ainda ouvimos “The Wrecking Ball Company” e “Your heart is a twisted vine”, de “The Sister”. Entre afinações de guitarra, Marissa volta, por momentos, ao primeiro “eu” e troca, de forma muito constrangida, dois dedos de conversa com o público - um embaraço que se revela um tanto ou quanto adorável, com um rubor vermelho a subir-lhe até às maçãs do rosto.

Marissa Nadler diz sentir que a sua música está mais pesada, e nós, como que presos a um encantamento, deixamo-nos levar, escondendo-nos da luz e seguindo os caminhos sombrios por que nos leva. Contudo, mesmo com todas a luzes apagadas, Marissa esquece-se de uma, a que radia de si própria. Entre sorrisos tímidos atrás do microfone, presenteia-nos, já em jeito de encore, com uns extras para a despedida. “The sun always reminds me of you”, recuperada do disco homónimo que, andando ainda mais para trás, coloca-nos um sorriso nos lábios, que se mantém enquanto escutamos uma versão de “Tecumseh Valley”, de Townes Van Zandt, para a despedida, a fazer lembrar quando, no mesmo espaço, largos meses antes, Scott Kelly a interpretou, também antes de dizer adeus a Lisboa.

Sem grandes palavras, mas com o mesmo olhar expressivo e sorriso de antes, Marissa larga a guitarra e volta ao seu primeiro “eu”, deixando-nos rapidamente a contemplar um palco vazio, de coração cheio, mas, ainda assim, um tanto desolado pelo assombro testemunhado.

Texto: Rita Bernardo

Fotografia: Luis Martins

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