Em 1984, uma banda oriunda de Cascais vencia a primeira edição do concurso de Música Moderna organizado pelo entretanto extinto Rock Rendez Vous. O prémio foi a gravação de um EP. Antes, essa banda havia gravado uma maqueta com uma faixa denominada “Nu ar”. Trinta anos passados, essa mesma banda regressa aos palcos, após um hiato de décadas. Um tempo demasiado longo, ditado por um desentendimento entre Anabela Duarte e Nuno Rebelo.

Os ecos da memória levam-nos para o espólio musical deixado pelos Mler Ife Dada. “Coisas que fascinam”, de 1987, e “Espírito invisível”, de 1989, ousaram desconstruir e dar cor a uma pop que em Portugal não encontrava paralelo. Misturavam música com imagem, muniam-se de armas surrealistas e exploravam sons do mundo. Eram uma espécie de objeto musical de codificações várias. Do jazz ao folk, do “fado” ao funk, da canção ao experimentalismo, das cores à sua ausência, do som ao silêncio.

Foi com a nostalgia e a saudade nas mentes que, aos poucos, o Grande Auditório do CCB se compôs, num dia dos namorados com muita chuva e expetativa. Um encontro de velhos amigos, unidos por um elemento comum: a música. Mas não uma música qualquer.

A génese deste “Pintar 1 Vai Vem 1984 - 2014” surgiu há alguns meses e desde setembro que Anabela e Nuno ensaiam na companhia dos camaradas de luta, de forma a recuperarem o tempo perdido. Na noite de sexta-feira, vocalista e guitarrista subiram ao palco do CCB, na companhia de Tiago Maia (em substituição do enfermo Francisco Rebelo) no baixo, Filipe Valentim nas teclas e Samuel Palitos na bateria. Mas, como de uma festa se tratava, os extremos do palco juntavam à celebração um trio de sopros e outro de cordas clássicas.
Seria, porém, a bateria a receber o primeiro elemento em palco, que descobria caminho por entre o negrume que faziam ecoar os primeiros acordes, no caso eletrónicos. A intensidade das palmas crescia à medida que o palco enchia. Anabela Duarte foi a última a entrar e, sorridente, agradeceu a devoção com uma tímida vénia. “Nu Ar” fazia-se ouvir e a coesão musical que emanava do placo levava para longe a ideia de tão longa paragem.

De preto trajada, ainda que com laivos de um branco especial, Anabela fazia de anfitriã face à chuva, e o ritmo gingão de “Pandra Bamba” trazia à sala, em tempo de invernia, ecos do calor dos trópicos. Em grande forma vocal, a senhora do microfone divertia-se, dançava e do palco saíam espirais musicais de um arco-íris radioso bem alimentado por acutilantes projeções animadas - ambiente confirmado em “Desastre de Automóvel em varão de escadas”.

Já com as turbinas bem quentes, “Erro de Cálculo” trazia a cena as teclas e os metais, que encontravam na voz sensual de Anabela, aqui acompanhada pelo coro de Nuno Rebelo, um bom porto. O espírito visível dos Mler Ife Dada, em toada jazzy, vibrava e levava os presentes a começar a abanar pés e almas. “Dance Music” elevou ainda mais o ritmo festivo e o ambiente era agora tomado pelo funk e pelo diálogo entre Anabela e Nuno. Aplausos, muitos.

A seguir, “O último mergulho” envolveu a atmosfera do Grande Auditório do CCB em momentos subaquáticos, em tom desconcertante e baladeiro, com a voz de Anabela a destacar-se através de um voo livre que vincou a sua mestria. Do silêncio para os ritmos mais esfíngicos foi um pequeno passo e foi impossível segurar os corpos ao ouvir os primeiros acordes de “À sombra desta pirâmide”, uma das mais geniais canções dos Mler Ife Dada. O exotismo do arranjo musical era notório e urgia deixar-se levar pelos laivos vocais que invadiam a sala.

Estamos, talvez, no auge de um concerto memorável e a sequência seguinte soube a um copo de água refrescante no quente deserto. A curta ausência de Anabela Duarte deixou o palco entregue a um número mágico de Nuno Rebelo, que serviu de maravilhosa introdução a “Sinto em Mim”, um exercício (perfeito) da desconstrução pop fadista, que os Mler Ife Dada fazem como ninguém. Os instrumentos entram de forma faseada e sequencial, a música cresce, as palmas dão sentido. Uma interpretação fantástica de uma música que é maior que a vida.

Com os nervos à flor da pele, o auditório recebe “Choro do vento e das nuvens”, deliciado, dedicado. Tal como a poesia da canção, também nós nos sentíamos sós com a exagerada ausência dos Mler Ife Dada. Quanto mais Anabela cantava, mais se adensava a saudade do seu (en)canto. Sentir música assim não é egoísmo, não é demais - é apreciar o sabor quente do regresso.

Ainda com as luzes envoltas de um certo negrume, Nuno Rebelo solicita a presença do silêncio, ao abraçar as cordas dolentes de um instrumento que faz anunciar a alma fadista de “Alfama”, outras das mais marcantes peças musicais da banda. De faca na liga, Anabela Duarte ataca o microfone, desalinha o seu fio, leva todos a percorrer Lisboa, com a fama do fado. No meio das muitas palmas, alguém grita: “Lindo!”.

Antes de “Valete (de copas)”, que recentemente foi alvo de uma revisitação, Nuno Rebelo aproveita para afinar as cordas da sua guitarra, e o resultado são minutos de puro deleite, com uma vincada participação dos metais e das cordas clássicas, que transmitem uma sensação ainda mais grandiosa da música. O espetro jazzy regressa como uma intensa interpretação de “L’amour va bien, merci”, uma das mais conhecidas canções da banda, que leva Anabela Duarte a uma dramática conversa telefónica ensimesmada.

De França para a Baviera o caminho é curto e “Festa da Cerveja” brindou o público com uma prestação elevada ao quadrado. Momentos depois, chega a vez de “Zuvi Zeva Novi”, o mais conhecido fragmento musical do grupo e que, envolto de uma teatralidade surreal, apoiada num deslumbrante jogo vocal, convida todos a dançar. O convite é aceite de bom grado e alguns levantam-se, dançam, sentem o momento.

Depois dos muitos aplausos e dos sorrisos vindos do palco, ouvem-se os primeiros sons do africaníssimo “Sio Djuzé”, que no original conta com a participação de Rui Reininho. A cumplicidade entre músicos é notória e Anabela e Nuno entreolham-se, satisfeitos. Antes da banda sair de palco, houve ainda tempo para um desconcertante e funk “Música do homem que anda (Walkman Music)”. Antes, foi tempo para “Xwe Xwe”. Tempo de intervalo, mas de curta duração.

Furando as muitas palmas, a banda regressa ao palco, desta vez com a vocalista envolta de uma capa escarlate, qual heroína de um filme sempre pop. “Ele e Ela”, um original de Madalena Iglésias, é invadido a meio do percurso pelos momentos free jazz de “Passerelle”, que leva Anabela Duarte a ensaiar um peculiar voo rasteiro. De volta à Terra, e num dos momentos mais introspetivos da noite, “Lossin Yelav…” transporta a audiência para um universo lírico envolto de uma brutal beleza, onde a voz vagueia, deliciosa, no ar. O final da festa fez-se com o regresso de “Zuvi Zeva Novi”, mas, desta vez, ninguém se atreveu a ficar sentado, e o CCB transformou-se numa entusiasta pista de dança com sabor aos anos 1980.

Décadas passadas, a música dos Mler Ife Dada continua a fascinar, não perdeu a sua magia e deixou um travo doce a saudade depois de tão prolongada ausência. Lisboa agradeceu o regresso, mas queria mais. É justo, é merecido e a ovação final de que a banda foi alvo sublinha a falta que a mesma faz. Aos seus membros fica o repto: regressem mais, por favor. A vossa ausência é masoquismo apaixonado.

Texto: Carlos Eugénio Augusto

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