"Eu amo quem eu sei que não me vai amar/ Mas só assim me dá vontade de cantar", dizia-nos um muito novinho Manel Cruz em "Dez Lamúrias por Gole", o primeiro tema editado pelos Ornatos Violeta, em 1995, numa compilação da revista Ritual. Mal sabia ele - ou, pelo menos, mal sabíamos nós - que esse relato amoroso seria o primeiro de muitos a ter eco numa geração que, especialmente na segunda metade da década de 90, encontrou nos Ornatos Violeta um espelho da sua adolescência. E em especial da adolescência cantada em português, numa altura em que o recurso à língua de Camões não tinha assim tantos adeptos no rock nacional.

Essa canção, além de dar o mote para a temática de corações partidos em que a banda de Cruz, Peixe, Nuno Prata, Kinörm e Elísio Donas mergulharia a fundo (nem sempre, mas muito frequentemente), é uma das que o disco "Inéditos/Raridades" recupera. Reunindo mais oito temas, esta visita ao baú do grupo é o principal atrativo de uma caixa que inclui também as reedições dos dois álbuns dos Ornatos, "Cão" (1997) e "O Monstro Precisa de Amigos" (1999).
O primeiro, direto, cru e enérgico, é o testemunho de uma banda a disparar emoções e ritmos sem travão, com um atrevimento que vai da música (funk, rock, ska ou apontamentos jazzy em desbragada promiscuidade) às palavras (canções como "Bigamia", "Líbido" ou "O Amor é Isto", viagens por uma montanha russa hormonal, não têm medo de chamar as coisas pelos nomes).
O segundo, mais meditativo, polido e melancólico (embora com alguns ótimos momentos de descarga, caso de "Dia Mau" ou "O.M.E.M."), mostra uma impressionante maturidade e um conjunto de canções ainda mais versátil do que o da estreia. Vítor Espadinha participa no clássico "Ouvi Dizer" (quem diria que iria ser cantado, uma década depois, por um vencedor do "Ídolos"?), Gordon Gano dá voz a "Capitão Romance" (um sonho tornado realidade, ou não fossem os Violent Femmes a banda de eleição dos Ornatos) e preciosidades como "Coisas" são exemplo de um grupo em estado de graça.

Mas voltando aos "Inéditos/Raridades", podemos dizer que, como a maioria dos discos do género, não tem propriamente a coesão de um álbum. Como também não será isso que se espera, o que oferece mostra-se satisfatório para fãs e não só.
"Tempo de Nascer", uma das melhores canções dos Ornatos em modo épico (afinal, os Faith No More eram uma referência), pode finalmente ser ouvida (em disco) por quem já não encontra a compilação "Tejo Beat", editada a propósito da Expo 98. "Marta", lado B de "Ouvi Dizer", segue a tradição de temas com pouco mais de um minuto de duração (presente em "Cão" e desenvolvida por Manel Cruz no projeto a solo Foge Foge Bandido). "Circo de Feras", versão interessante, embora não muito desafiante, da canção dos Xutos & Pontapés, incluída no álbum-tributo "XX Anos XX Bandas", também cá está.

Entre os inéditos, contam-se quatro das sessões de gravação de "O Monstro Precisa de Amigos", dos quais preferimos "Devagar" e "Rio de Raiva", com um minimalismo à base de voz e guitarra (o primeiro tema tem ainda direito à tímida, mas aconchegante, presença de sinos). A corrida desenfreada de "Pára-me Agora", rock de rajada entre aplausos, completa o lote de canções. O tema foi o último gravado pelos Ornatos Violeta e o princípio de um disco, "Monte Elvis", que não chegou a concretizar-se, uma vez que o grupo se separou em 2002. Mas o cordão umbilical continuou a ligar os seus elementos à música. Manel Cruz prepara o álbum dos Supernada, tem o seu Foge Foge Bandido e integrou os Pluto ao lado de Peixe. Por sua vez, o guitarrista faz hoje parte dos Zelig. Kinörm, o baterista, mantém a função nos Plus Ultra e Elísio Donas foi teclista dos Per7ume. Já Nuno Prata, então o baixista, tem-se mostrado um surpreendente cantautor e soma já dois álbuns.

Embora conte quase toda a história dos Ornatos Violeta, a caixa que junta "Inéditos/Raridades" aos dois álbuns deixa alguns capítulos de fora. "Madame Banho" ou "Tv", onde a banda mais se aproximou do ska, ou ainda "Gente Em Pó" e "Planos de Merda", são episódios iniciais que não chegam a ser recordados aqui. Mesmo assim, mora nestes três discos bem mais do que o essencial dos Ornatos Violeta. E voltando a insistir em "Dez Lamúrias por Gole", a canção mais antiga do quinteto, percebemos melhor que, duas décadas depois, muita coisa mudou. "Escrevi canções sobre ela, mil noites sem fim/ Deixou-me neste bar a cantá-las para mim", sussurra também Manel Cruz nesse tema de apresentação. Mas de então para cá, além de cantar para ele, o desencantado vocalista foi tendo mais de uma geração à escuta. Agora, com esta reedição, extras e inéditos, está aberto o caminho para que o cão continue a ladrar e que o monstro vá ganhando mais amigos.

@Gonçalo Sá

Videoclips de "Punk Moda Funk", "Ouvi Dizer" e "Capitão Romance":

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