Quem chegasse ao Pavilhão Atlântico sem saber ao que ia poderia pensar estar não num concerto de Ricky Martin mas de Lady Gaga - que atuou na mesma sala em Dezembro -, quando o misto de música techno e um imaginário noturno (e algo retro-futurista) deu início ao concerto do cantor de "Livin' La Vida Loca".
O palco contou com uma estrutura metálica de dois andares, ocupada por quase duas dezenas de músicos e bailarinos, cenário revelado depois de algumas imagens em que o cantor porto-riquenho se libertou de várias correntes. Não por acaso, Ricky Martin está mais solto do que nunca agora que revelou ao mundo a sua homossexualidade, aspeto que não passa despercebido num espetáculo que celebra a auto-aceitação - e também aí está próximo do apelo à tolerância da autora de "Born This Way".

Poucos (ou não muitos) mas bons - e bamboleantes

Sem medo de ser ele próprio, o cantor transpirou confiança numa performance exigente, que lhe deu pouco tempo para descansar dado o ritmo acelerado da cerca de hora e meia de atuação.
Distribuindo mais sorrisos do que palavras - apesar de se dirigir ao público em português em duas ou três ocasiões -, o porto-riquenho apresentou o seu novo disco, "Musica + Alma + Sexo", mas as reações mais bombásticas centraram-se nos singles mais antigos, caso de "She Bangs", "Maria", "La Copa de La Vida" ou "Shake Your Bon-Bon". O título desta última foi praticamente o lema da noite, descrição curta e certeira de um público que, embora pouco numeroso - compondo uma sala meio cheia, se tanto -, foi incansável do primeiro ao último tema - e até antes e depois, convencendo o cantor a regressarcom umpedido de encore a roçar o ensurdecedor.

O entusiasmo geral levou a que muitos espetadores tentassem dançar mesmo nos temas mais calmos, vincados por (poucas) baladas românticas de sabor latino - os momentos mais fracos da noite, tanto a nível musical como cénico. Além de sonoridades da sua terra natal, Ricky Martin rodeou-se de elementos eletrónicos, brincou ao hard rock da década de 80 e chegou a relembrar ambientes jazzy dos anos 30 numa mistura espartana que, se perde por ser muitas vezes genérica, também vale pelo imprevisto - e pela inegável competência da banda, cuja panóplia de instrumentos incluiu guitarra (elétrica e acústica), bateria, saxofone, acordeão, bateria ou trompete.

Ocorpoe omanifesto

Com uma postura que alternou entre o homem-objeto (nos primeiros minutos, quando ficou em tronco nu, rodeado de bailarinos-motard) e os clichés do macho latino (em "Livin' La Vida Loca", por exemplo, já mais composto e disputado por bailarinas vestidas para matar), o cantor mostrou-se despudorado e por vezes até assanhado. Na reta final do concerto, os ambientes sado-maso sugeridos pelo arranque foram reforçados com três bailarinas equipadas com chicote e lingerie. Pouco depois, o cantor viu-se envolto numa coleção de homens e mulheres de cabedal e mascarilhas, desaparecendo num elevador subterrâneo quando a subida de temperatura poderia queimar os mais suscetíveis.

No meio da festa condimentada com salsa, tempero bas fond e atmosferas de discoteca, houve espaço paraa seriedade em alguns interlúdios. Num deles, foi projetado um vídeo em que um dos bailarinos contou a sua história, em especial a discriminação de que foi alvo por ser homossexual. Mais à frente, o público acompanhou o relato do guitarrista, que destacou o racismo - recordação acompanhada com um muito aplaudido solo de guitarra em palco.
Esta componente didática nada subtil, defensora da máxima "sê tu mesmo", teve apoteose no último vídeo, em que um Ricky Martin nu e tatuado foi pintado com várias cores. O segmento, com eletrónica agressiva, funcionou como introdução de "Mas", single de "Musica + Alma + Sexo" e um dos momentos mais efusivos da noite,quando queo cantore a sua banda mostraram uma alegria de viver capaz de contagiar os olhares mais cínicos.

"Portugal e Porto Rico estão unidos pela música esta noite", disseRicky Martina certa altura, não se esquecendo de envergar a bandeira portuguesa durante um concerto em que também promoveu a sua terra natal. Além da música, a alma e o sexo ajudaram a dar ânimo a um concerto que o cantor garantiu, emocionado, que não iria esquecer. Tendo em conta o profissionalismo da produção e a evidente química com o público, é difícil não acreditar na sua confidência.

@Gonçalo Sá

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