Foram essas faixas de “Infinity” as que mais desfilaram ao longo do espetáculo, que se viu introduzido por um acender de lâmpadas pelo palcopontual, à semelhança do que se observou na última passagem dos Sigur Rós por Portugal. Iluminado o espaço, Yann surgiu perante a sala de Lisboa, em formato de banda completa, para interpretar as suas composições - o que deverá ter desiludido, logo desde os primeiros minutos, quem procurava encontrar desarmado o compositor responsável pelas valsas de “Amélie”. O concerto foi «barulhento» e pouco pacífico, num contexto musical, indo ao desencontro das expetativas-padrão.

Tiersen terá dispensado o foco único de luz sob a sua cabeça para mostrar o talento tremendo dos seus parceiros, que se distribuíam por vários instrumentos, como guitarra, xilofone, piano, violino e ainda uma melódica. Ólavur Jákupsson, que se encontrava à sua direita, nos sintetizadores, chegou a dividir a voz com o protagonista. Os trunfos de “Infinity”, que vão desde a sensibilidade francesa no vibrafone ao bater celestial de sininhos, justapuseram-se na medida certa de percussão e chegaram a atingir uma harmonia perfeita, como se existisse um algoritmo capaz de resolver cada composição. Em contrapartida, as faixas pareciam, tal como em estúdio, ser terminadas no seu auge, causando séries de aplausos abruptos a cada três minutos ou pouco mais.

Ainda que as faixas não-instrumentais tenham sido, em geral, menos entusiasmantes, ‘A Midsummer Evening’, no primeiro quarto de hora de concerto, terá revelado logo um Yann concentrado no lento e espectral crescendo dos temas – uma expressão de homem interiorizado na obra, solene, profundamente concentrado naqueles acréscimos que a música ia ganhando com cada instrumento, fazendo-se voar na sua criatividade. A plateia, silenciosa, guardava sempre os aplausos para o atarefado músico no fechar das faixas, sendo por vezes respondidos por um "obrigado" em português. No entanto, existiram aplausos a surgir no abrir de ‘La Dispute’. Yann Tiersen empunhava uma melódica e a magia estendeu-se ao piano, pouco depois. Em poucos segundos, Lisboa era Paris e “Amélie” sussurrava-nos ao ouvido, naquele seu jeito, enquanto mergulhava os dedos pelos cereais da mercearia da esquina. Equiparado aplauso só havia de surgir na rendição de ‘Sur Le Fil’, exclusivamente em violino, antes da final ‘Till The End’, e já depois do encore.

Existe um punhado de músicos contemporâneos cujo papel na composição pode ser descrito de intemporal - ou até mesmo de eterno. Quando se trata de um desses músicos, o nosso mais profundo desejo é que as suas qualidades prevaleçam e que este se demonstre brilhante, faixa após faixa e álbum após álbum. Embora Yann Tiersen possa dividir opiniões com a sua carreira mais recente, seria asneira afirmar que este não reside nesse lote restrito de músicos capazes de apresentar um repertório variado, atraente e requintado.

Texto: Nuno Bernardo

Fotografia: Rita Bernardo

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