“A Casa de Bernarda Alba” (1936) é o único texto de teatro escrito em prosa pelo dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca – finalizado trinta dias antes da sua morte, assassinado pelas forças falangistas – e é o último de uma trilogia, que integra as peças “Bodas de Sangue” (1933) e “Yerma” (1934).

Trata-se de uma história só de mulheres - a única personagem masculina é ausente - mas aqui totalmente interpretada por homens, que surgem enquanto tal, sem roupas nem trejeitos afeminados, assumindo a sua masculinidade física nos papéis das mulheres que interpretam, com uma linguagem que é feita no feminino.

Hugo Franco explica esta opção com a vontade de trabalhar a questão do machismo e desta Bernarda Alba que fica a mandar na família após a morte do segundo marido, impondo às filhas um luto de oito anos e uma disciplina austera e opressiva, à luz dos padrões machistas e autoritários com que foi criada.

“Esta Bernarda Alba, quando toma o poder da casa, a forma que ela tem de exprimir esse poder é como ressonância do que aprendeu da família dela. Ela diz isso no texto: ‘Assim será, como em casa do meu avô e em casa do meu pai’. Ao mesmo tempo, a mim intrigava-me como é que seriam os homens vítimas desse próprio machismo, olharmos para esta peça de uma forma machista, que ela é”, disse, no final de um ensaio.

A peça é de 1936 e baseia-se em factos reais, pois esta família existiu mesmo, na aldeia de Federico Garcia Lorca, e “a sociedade na altura esta isto”, afirmou o encenador.

“Para a mulher, agulha e linha, e para o homem, mula e chicote. Assim, por que não fazer isto com homens, os homens vítimas desse chicote e dessas mulas, e como é que seriam as frases da Bernarda Alba mulher, ditas por um homem?”.

Esse homem é João Mota, encenador, diretor e co-fundador da Comuna, que regressa como ator, ao fim de 20 anos, escolhido por Hugo Franco que, depois de “andar às voltas” para arranjar alguém para interpretar Bernarda Alba, percebeu que as características que queria para aquele papel estavam “ali ao lado”, em João Mota.

Os outros atores convidados pelo encenador para papéis específicos foram João Grosso, como empregada Pôncia, e Carlos Paulo, como Josefa, mãe de Bernarda Alba, estas duas mulheres também submetidas ao jugo da matriarca.

Aprofundando este tema, Hugo Franco conclui que mais do que o machismo, está em causa uma questão de poder.

“O poder não tem um género, se fosse uma mulher a dizer, ela diria as mesmas palavras na forma de uma mulher, que não interessa aqui o género que ela tem, é um ser humano a dizer aquelas palavras, que é o Mota, que é um homem, como poderia ser uma mulher. Não tem grande relevância”.

O espetáculo começa ao som de badaladas e com a entrada de Pôncia em cena, que conta a história da família e maldiz Bernarda Alba, a que se segue a entrada das cinco filhas reprimidas - Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela – e finalmente a mãe, que grita “Silêncio”.

Qual a diferença entre essa ordem dita por um homem e dita por uma mulher, é a questão que Hugo Franco se coloca e com a qual joga ao colocá-la no boca de um homem, que interpreta uma mulher, que, por sua vez, encarna os padrões masculinos, machistas e repressivos que lhe foram incutidos.

“Ao mesmo tempo que falo desta coisa do machismo, acho que a forma de exercer o poder está um pouco ligada à nossa educação, à nossa instrução, como é que nós vimos o poder”, porque quando Bernarda Alba enviúva e pode finalmente libertar-se, ela escolhe exercer o poder com essa “ressonância masculina”, ela “adora o poder ao espelho do machismo”, afirmou.

Nesta história de mulheres há apenas um homem, Pepe Romano, figura sempre presente, embora ausente, que vai trazer a discórdia entre as irmãs, fruto da repressão sexual que vivem, conduzindo à revolta da mais nova e à inevitável tragédia.

O dispositivo cénico é simples, amplo, negro e dispõe unicamente de um banco, que é muito mais do que um assento, simbolizando, entre muitas outras coisas, a tensão, o poder, a revolta, a sexualidade, ou a morte, como se vai percebendo com o avançar do espetáculo.

“Tenho sempre esta coisa de aproveitar ao máximo os espaços das encenações”, revela o encenador, justificando a opção para o cenário.

Os figurinos são todos brancos, à exceção de um casaco azul com que aparece a certa altura a avó das jovens, e de um “vestido” verde com que Adele se passa a cobrir quando se revolta, cor escolhida numa alusão ao poema “Verde que te quero verde”, também de Federico Garcia Lorca.

“Apesar de ser em prosa, eu acho que o universo poético que ele tem, as imagens para onde nos transporta quando o estamos a ouvir, é [tudo] muito poético. Acho que essa parte foi a mais difícil de fazer os atores acreditarem”, afirmou Hugo Franco.

O espetáculo integra-se nas comemorações dos 50 anos do Teatro da Comuna e vai estar em cena até dia 23 de outubro, com sessões às quartas-feiras, às 19h00, de quinta-feira a sábado, às 21h00, e, aos domingos, às 16h00.

As cinco filhas de Bernarda Alba são interpretadas por Miguel Sermão, Francisco Pereira de Almeida, Gonçalo Botelho, Luís Garcia e Rogério Vale.

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