“Tudo o que vejo está nos teus olhos” é como começa a peça do dramaturgo e encenador argentino Claudio Tolcachir, nascido em Buenos Aires, em 1975, que os AU estreiam agora numa criação coletiva depois de, em 2017, terem editado textos de três autores argentinos, um dos quais Tolcachir, de quem fizeram uma leitura encenada.

“E assim nos apaixonámos por ele”, frisaram à Lusa Andreia Bento e Pedro Carraca, dois dos atores da companhia dirigida por Jorge Silva Melo que interpretam a peça.

Uma casal de mulheres que tenta desesperadamente engravidar, duas mães que tentam, em vão, proteger os filhos de todos os perigos do mundo, um homem submisso e completamente dependente da mãe, e um doutor, que não se chegar a perceber se é psicólogo, psiquiatra ou psicoterapeuta, são as personagens da peça.

Sara Inês Gigante (Celeste), Pedro Baptista (Darío) e Margarida Correia (Lena) são o triângulo fundamental deste drama social, marcado pelo desejo desenfreado do casal de mulheres em ter um filho.

Para isso, Celeste e Lena estão dispostas a tudo. Mesmo a uma violação. Tudo para que Celeste venha a ser mãe do “menino, bem morenaço” que Lena, logo no início da peça, vislumbrara ao colo de Celeste enquanto esta o amamentava.

Num cenário despojado – uma mesa, cadeiras, uma cama, um sofá, um baú e poucos mais adereços preenchem o palco – desenrola-se, assim, uma peça que se passa tanto na casa de Dora, mãe de Celeste, como na de Mecha, mãe de Darío, ou no consultório de Santiago.

E é neste espaço que as cinco personagens, todas no fio da navalha e “sempre à beira do precipício" são "capazes de tudo em nome do amor”, explicou Andreia Bento.

Mesmo “coisas que a sociedade considere menos corretas”, acrescentou, no final de um ensaio para a imprensa, Isabel Muñoz Cardoso, que também interpreta.

Esta peça do dramaturgo argentino fundador da Companhia e Escola Timbre 4, que, com regularidade, apresenta os seus espetáculos na sua sala em Buenos Aires e no estrangeiro, é um texto sobre pessoas que não se coíbem de transgredir todas as regras e todas as convenções sociais para viver os seus afetos.

Contudo, não é por isso que “O vento num violino” deixa de ser uma peça em que as personagens vivem em sofrimento e amargura constantes.

Assim, “O vento num violino” é uma peça que pode acontecer em qualquer parte do mundo nos dias de hoje, argumentou Isabel Muñoz Cardoso.

“É uma peça sobre como o amor é possível dentro daquilo que pode ser considerado disfuncional”, acrescenta a atriz que interpreta Mecha, mãe de Darío, sublinhando tratar-se também de um texto sobre o desejo, "o desejo de ser feliz, mesmo que a felicidade apenas se obtenha através do desespero".

Com cenário e figurino de Rita Lopes Alves e luz de Pedro Domingos, a peça da companhia dirigida por Jorge Silva Melo vai estar em cena no Teatro da Politécnica até 13 de outubro.

“O vento num violino” é a peça com que o dramaturgo argentino encerra uma trilogia de dramas sociais, que integra também “A omissão da família Coleman” (2005) e “Terceiro Corpo” (2008), e pode ser vista às terças e quartas-feiras, às 19:00, às quintas e sextas, às 21:00, e aos sábados, às 16:00 e às 21:00.

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