Chama-se Bazarov, como a personagem do romance “Pais e Filhos”, do escritor russo Ivan Turgueniev, obra que marcou a adolescência do editor, Ricardo Costa, e que agora volta a ganhar importância simbólica devido à sua recente paternidade, que lhe deu o fôlego que faltava para arrancar com este projeto antigo, conforme contou à Lusa.

“A ideia da edição nasce com a rotina de leitura na adolescência. Foi uma ideia que veio e se foi várias vezes, pelas mais diferentes razões. Mais recentemente, talvez fruto da paternidade, senti uma atração muito grande para finalmente concretizar este projeto”.

Nasceu assim, em plena pandemia, a editora que se pretende dedicar à ficção literária internacional e ao formato de ensaio longo, e se propõe publicar doze títulos ainda este ano, tendo já 24 livros a ser contratados para 2021.

Para a coordenação editorial, Ricardo Costa contou com “o apoio fundamental” de Guilherme Pires, que conhecera recentemente e com quem partilhou as suas ideias.

“Queria publicar em Portugal aquilo que, não por opção, não conseguia ler em português; queria uma editora sem ruído, sem imagens, onde só o texto interessasse; queria publicar sem concessões comerciais; queria criar um catálogo que fosse uma espécie de educação literária e sentimental para o meu filho, algo que ele pudesse ler quando fosse mais crescido e que lhe transmitisse os gostos do pai e aquilo em que ele acredita”.

O design (imagem, capas, miolo de todos os livros) é da responsabilidade de Andrew Howard, a quem Ricardo Costa desafiou, porque conhecia o seu trabalho enquanto responsável pela identidade visual da Ahab, uma editora fundada também no Porto, em 2009, mas que já não existe.

Ricardo Costa anteviu aqui um eventual problema porque o minimalismo é uma das apostas da Bazarov, que rejeita as imagens e as cores: capas pretas com letras brancas (ficção) ou brancas com letras pretas (ensaio).

“Expliquei-lhe [a Andrew Howard] que me doía a cabeça (não naquele dia em particular, mas em geral), que estava cansado de ruído e que queria livros sem fotografias, desenhos ou imagens, apenas tipografia. Pensei que recusaria o desafio, por ser tão limitativo do seu trabalho, mas foi exatamente o oposto: ficou muito entusiasmado com o projeto e decidiu colaborar com ele”, relatou o editor.

O critério para as escolhas editoriais “é muito simples”, afirma, explicando que gosta e sente que tem de publicar em português.

É por isso que a maioria do catálogo é composto por autores que leu em inglês ou noutras línguas e que, por qualquer motivo, ainda não estavam publicados em Portugal.

“Penso que trazemos para Portugal nomes muito fortes e com grande reconhecimento internacional como Gerald Murnane (eterno candidato ao Nobel da Literatura), Vladimir Sorokin ou César Aira”, exemplificou.

Ao mesmo tempo, “jovens autores com grande futuro como Jesse Ball ou Valeria Luiselli certamente deixarão marca; as crónicas de David Foster Wallace sobre ténis ou o ensaio do Paul B. Preciado sobre questões de identidade e género terão impacto mediático”, acrescentou.

Mas se Ricardo Costa tivesse de escolher um autor que sentisse que era “tanto um dever como uma honra” apresentar em língua portuguesa, escolheria Eliot Weinberger, “cujos ensaios são qualquer coisa híbrida entre a entrada de Wikipédia e o poema”.

“É, provavelmente, o autor internacional que mais me entusiasma neste momento”, sublinhou.

Os primeiros livros a chegar ao mercado serão “Censo”, de Jesse Ball, com tradução de Maria do Carmo Figueira, e “Ensaísmo”, um ensaio de Brian Dillon traduzido por Nuno Quintas. Ambos serão publicados a 8 de setembro.

Ainda no mesmo mês, mas a 24, devem chegar às livrarias “A tempestade”, de Vladimir Sorokin, com tradução de Marta Mendonça, e “A lua”, de Joachim Kalka, com tradução de Isabel Castro Silva.

Ricardo Costa afirma não se querer distinguir no mercado editorial por alguma característica particular, mas admite que existem algumas práticas ou conceitos que são importantes para ele, como é o caso da ausência de imagens e cores, a sobriedade e a concisão, assim como a intenção de “remunerar os profissionais freelancers que contrata ligeiramente acima da média do mercado e, sempre que possível, no dia seguinte à entrega do trabalho”.

Além do sentimento de urgência e de uma nova perspetiva de prioridades que a paternidade lhe deu, contribuiu também para avançar com a editora o facto de viver maioritariamente em Londres e sentir a necessidade de estar ligado ao seu país de origem de uma outra forma que não virtual, revelou o editor.

Questionado sobre o risco de lançar um projeto destes numa altura em que o mercado livreiro está fragilizado e atravessa dificuldades, decorrentes da pandemia de covid-19, Ricardo Costa lembrou que “o mercado livreiro vive fragilizado há muito tempo” e que “a culpa não é apenas da pandemia ou da falta de apoios crónica de que o setor é alvo”.

“Acho que o ‘mea culpa’ tem de ser transversal a todos, e é preciso entender porque se lê tão pouco e muitas vezes mal em Portugal. Na prática, não existe uma boa altura para lançar um projeto como este, mas isso também lhe dá interesse”, afirmou.

Sobre o nome escolhido para a editora, Ricardo Costa explica que, além da importância que o romance que o inspirou teve na sua adolescência, “Bazarov era uma personagem ao contrário” e “a editora também o é um pouco”.

Além disso, “o título do livro ['Pais e Filhos'] invoca mais uma vez o estado de paternidade que vivo; estou naquela fase estranha da vida onde não sei bem se sou filho do meu pai ou pai do meu filho”.

Em outubro, saem “As planícies”, de Gerald Murnane, “Um apartamento em Úrano”, de Paul B. Preciado, “Os fantasmas”, de César Aira, e “Uma coisa elementar”, de Eliot Weinberger.

Em novembro, chegam “Rio”, por Esther Kinsky, “Uma história natural do vento”, por Lyall Watson, “Deserto sonoro”, da autoria de Valeria Luiselli, e “Teoria das cordas”, escrito por David Foster Wallace.

Entre o leque de tradutores da Bazarov contam-se ainda nomes como Manuel Alberto Vieira, Bruno Vieira Amaral, Miguel Filipe Mochila, Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Miguel Romeira e Paulo Rêgo.

A editora tem ainda um site, no qual disponibiliza gratuitamente trabalhos originais de formato mais curto, como “micro-contos” de Margarida Vale do Gato, Jesse Ball ou Bruno Vieira Amaral, e ensaios de Eliot Weinberger ou H.G. Cancela.

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