Com a onda de calor que Portugal atravessou e que provocou uma vaga de incêndios rurais em várias zonas do país, a organização do Boom Festival não deixou nada ao acaso e tem, inclusivamente, um plano de emergência e prevenção no âmbito dos incêndios rurais.

“O grau de exigência e cuidado é real. Temos feito simulacros [foram realizados três simulacros envolvendo todas as autoridades]. As equipas estão todas particularmente atentas a este tema. Repare, o calor, ou melhor, temperaturas de 35 graus podem ser raras em Lisboa, mas são a regra no interior do país. Foi assim nas edições anteriores. Avisos para a temperatura elevada são, portanto, habituais”, explicou à agência Lusa Artur Mendes, da organização.

Este responsável sublinhou que as previsões meteorológicas continuam, ainda assim, abaixo do que aconteceu há uma semana, mas entende que nada pode ser facilitado.

“A nossa planificação reflete esse sentido de exigência. Muitos do que fizemos seria impossível fazer se a nossa passagem pela herdade acontecesse apenas durante a semana do festival. Como estamos aqui o ano inteiro, esse trabalho contínuo torna-se fazível e ganha consistência”, salientou.

A 13.ª edição deste festival bienal que se realiza em Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, foi cancelada em 2020 e 2021, devido à pandemia da COVID-19, paragem que deixou algumas consequências que a organização não esconde.

“O facto de não ter havido Boom teve naturalmente consequências financeiras, mas mantivemos a equipa, cerca de 30 pessoas, compreendemos que era fundamental resistir ao lado de Idanha. Honrámos os compromissos com cada pessoa da equipa até ao fim de cada contrato de trabalho. Isso significou que a nossa organização apoiou até mesmo ‘freelancers’, muitos dos quais não podiam contar com o apoio do governo”, disse.

Adiantou ainda que as medidas de proteção da cultura em Portugal “são quase inexistentes e ficam aquém da resolução de questões fundamentais”.

“Falta-me apenas dizer que não foi apenas o Boom que sofreu este impacto monumental, foi todo o setor da cultura. A única diferença é que nós trabalhamos no interior, uma região maravilhosa, mas onde tudo é mais difícil. Digamos que tudo o que fica longe de Lisboa sofre as consequências”, sustentou.

Contudo, deixou bem claro que apesar de todas as dificuldades, a equipa do Boom está em Idanha-a-Nova, o ano inteiro, em permanência.

“Cuidamos da herdade, tratamos da vegetação, dos caminhos…. Posso dizer que o ordenamento do território que tanto queremos para o nosso país acontece nestes 180 hectares [herdade]. As espécies autóctones, a limpeza do terreno, quando necessária, tudo isso acontece e aconteceu, mesmo durante a pandemia [COVID-19]”, frisou.

O Boom, tal como nas anteriores edições, não foge à regra e 85% do público que vem é estrangeiro o que transforma este festival no acontecimento cultural realizado no país, com mais diversidade do ponto de vista das nacionalidades (177).

“É importante notar que não é o contingente específico de um país que define o festival, nem é isso que nos interessa. O importante é a diversidade de pessoas de todo o mundo que vivem a experiência do Boom e que a repetem edição após edição”, realçou.

Apesar de oficialmente começar hoje, o Boom Festival abriu as portas na quinta-feira, às 6:00, mas desde o dia anterior estavam cerca de quatro mil pessoas no ‘pré-parque’, sendo que entre quinta-feira e hoje chegam mais 30, 35 mil.

Artur Mendes explicou à Lusa que as autoridades sabem disso e conhecem ao detalhe os planos da organização.

“Conhecem-nos há meses. Repare, há pessoas que viajaram da Ásia, por exemplo do Japão, da Tailândia, outros vieram da África do Sul. Quanto às autoridades, penso, aliás, tenho a certeza de que reconhecem competência ao nosso trabalho. Terá de lhes perguntar o que pensam, mas, sem quebrar nenhuma confidencialidade, digamos que o nosso esforço e estratégia têm sido reconhecidos”, salientou.

Aliás, este responsável diz mesmo que o presidente e a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova sabem a importância que o Boom tem para a região.

E, adianta que, nesse sentido, ao longo dos anos, o autarca tem procurado juntar todas as autoridades e o Boom, de modo a preparar e coordenar todos os esforços, lado a lado, em absoluta cooperação.

“Penso até que este ano existirá uma espécie de centro coordenador da operação instalado na câmara [Idanha-a-Nova]. Todos queremos proteger as pessoas, proteger o ambiente, garantir que os visitantes se divertem e nos voltem a visitar”, concluiu.

Quanto à herdade e aos seus 180 hectares, tem sido alvo de vários melhoramentos e a equipa que ali está em permanência durante todo o ano, já construiu uma estação de tratamento (com capacidade para sete milhões de litros) para tratar a água cinza dos chuveiros do festival e reutilizá-la para irrigação, para apoiar a regeneração e reflorestamento da Boomland.

Foram ainda construídos 112 novos chuveiros a partir de plástico reciclado e 94 novas casas de banho, algumas feitas com plástico reciclado e outras com materiais reciclados a partir de interiores de automóveis.

Este ano, os horários de banho continuam a ser limitados, para ajudar a preservar a água e estão disponíveis WC 100 por cento compostáveis.

Após tratamento e análise, este composto é devolvido à terra para criação de solo na parte florestal.

Desde 2015, o programa de reflorestação do Boom plantou 925 árvores e 120 unidades arbustivas.

“Somos um festival que desde 2008 recebe os prémios mais importantes de eventos sustentáveis. Através do festival conseguimos recursos que ‘renaturalizam’ a herdade e, com isso, geramos impactos positivos. A água é tratada e reintroduzida para reflorestação, existe energia solar, utilizamos animais para gestão de combustíveis, reflorestamos com espécies nativas ou adaptadas ao ecossistema e parte das receitas é revertida para projetos locais e levamos cultura ao interior, atraindo públicos e fixando populações”, referiu Artur Mendes.

Por último, este responsável salientou que a organização do Boom Festival tem estado em contacto com as autoridades, designadamente Proteção Civil, GNR e, claro, com a equipa da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.

“Fizemos várias reuniões com todas estas entidades. Demos toda a informação, mostrámos todos os planos de contingência, aliás, reforçámos os cuidados e alterámos alguns planos. Somos naturalmente cuidadosos e exigentes, a preocupação ambiental não é um adorno para o Boom, faz parte de quem somos”, concluiu.

Já o presidente da câmara de Idanha-a-Nova, Armindo Jacinto, explicou que o Boom Festival “é uma das principais referências de Idanha como Cidade Criativa da UNESCO, na área da Música, que entende que as indústrias criativas podem ser agentes de desenvolvimento económico e social”.

“O Boom Festival tem um impacto económico total de 55,3 milhões de euros em Portugal, segundo um estudo realizado em 2020. A organização esforça-se para que o impacto social e económico aconteça o mais possível neste concelho e região, nomeadamente ao nível dos postos de trabalho gerados pelo Boom, da escolha dos fornecedores e produtos utilizados no festival”, disse.

O autarca considerou mesmo este evento bianual, “uma peça fundamental para o sucesso do modelo de desenvolvimento sustentável de Idanha”, não só por todo o valor económico e notoriedade que cria na região, diretamente e indiretamente, mas também por servir de referência para outros projetos que apostam em práticas de sustentabilidade.

“O Boom Festival está perfeitamente alinhado com os valores que Idanha preconiza para o concelho enquanto primeira biorregião de Portugal. É para Idanha um grande orgulho acolher o Boom Festival”, concluiu.

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