"Nem sou muito de olhar para o passado, mas com a circunstância de ter de parar, de fazer um balanço, neste momento, fez sentido para mim", disse a criadora numa entrevista à agência Lusa sobre a nova peça que estará em cena no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, de 2 a 6 de fevereiro.

O novo trabalho - nascido de uma necessidade de "agir e resistir" - acontece numa altura em que a Produções Real Pelágio, associação cultural fundada em 1997 por Sílvia Real e Sérgio Pelágio, na sequência do trabalho que a coreógrafa e o músico vinham desenvolvendo em conjunto, celebra 25 anos de existência.

"A ideia para este espetáculo começou sem objetivos concretos, durante o primeiro confinamento [em 2020], porque a Real Plágio, a associação que produz o meu trabalho, estava num grande impasse, sem apoios da Direção-Geral das Artes [DGArtes], na altura, porque tínhamos sido excluídos do apoio sustentado, embora estivéssemos elegíveis, como outras companhias", recordou.

Nesse contexto, Sílvia Real entrou num "período de reflexão", que "serviu para resolver muitas coisas", entre elas a necessidade de extinguir o Grupo 23: Silêncio! - composto por 17 crianças, adolescentes e adultos - com quem trabalhou nos últimos oito anos, na sequência de um projeto desenvolvido com a Escola A Voz do Operário, em Lisboa, circulando com espetáculos por todo o país.

"Estava num grande impasse, a pensar se iria continuar, pela grande complexidade do projeto", comentou à Lusa, referindo que a decisão foi difícil e muito emocional, "mas sem apoios não poderia ter continuidade".

Rejeitando a situação de confinamento, e de "ficar em casa fechada numa espécie de bolha protegida", a coreógrafa e bailarina resolveu "uma série de questões", e decidiu voltar a explorar uma ideia de formato a solo, por questões logísticas e financeiras, e instalou-se em estúdio, no Teatro da Voz, na Graça, em Lisboa, para investigar sozinha.

"Uma ideia que me estava muito presente era cantar. Eu não sou cantora nem música, mas sempre tive esta paixão, e nalguns espetáculos anteriores também cantei. Juntei esta investigação sem rumo a esta vontade de cantar", contou a bailarina, que também se viu "forçada a despejar um barracão de adereços e figurinos" acumulado durante trinta anos de percurso artístico.

Nesse "confronto de fantasmas, de figurinos e adereços muito forte, decidir o que ia para o lixo e o que não ia, foi difícil, e durou meses", porque fez uma escolha para aproveitar o que poderia usar um dia, "com imaginação".

Sílvia Real percebeu que "era um legado enorme que ali estava", e todas aquelas coincidências acabaram numa ideia: criar um espetáculo com som, de canções de uma vida, para um concerto.

Pouco tempo depois, surgiu um apoio da DGArtes no contexto da pandemia, para todas as candidaturas dos artistas, e a criadora decidiu que "já não poderia estar a solo", em palco, e "devia, pela falta de trabalho, convidar pessoas para trabalhar" no novo espetáculo.

"Sou uma pessoa de ação, gosto de estar com pessoas, do confronto de ideias diferentes, de trabalhar em duplas", justificou a criadora que, ao longo da pandemia se envolveu na Ação Cooperativista, um grupo informal de artistas e agentes culturais que se formou em abril de 2020 para "unir, valorizando a diversidade, os trabalhadores das artes e da cultura em Portugal", através de diversas iniciativas de reflexão e de entre ajuda em contexto de crise.

Atravessando tempos adversos para os artistas, Silvia Real acabou por fazer um balanço do percurso artístico que serviu para se questionar "e tentar encontrar algo diferente, arriscando algo que nunca tinha feito" até agora.

Juntou-se então ao coreógrafo Francisco Camacho - que assina também a coreografia -, a Sofia Sequeira, responsável pela música da peça, e à investigadora da área da educação e direitos humanos Simone Longo de Andrade, com quem selecionou textos.

Para o palco, Sílvia Real convidou os jovens bailarinos Beatriz Valentim e Magnum Soares, intérpretes e cocriadores do espetáculo "Concerto n.º 1 para Laura", que, depois da estreia no São Luiz, irá para digressão, com data prevista de 18 de fevereiro no Teatro-Cine de Torres Vedras, e no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, em data a anunciar.

Questionada pela Lusa sobre a situação atual das artes performativas, passados que são dois anos de pandemia, Sílvia Real indicou que "há muitas pessoas a trabalhar, e com projetos novos, mas os teatros [do país] têm atrasos na organização das programações devido às paragens dos confinamentos".

"Estamos num período de adaptação que vai demorar algum tempo a acalmar", prevê a coreógrafa, que apresentou o espetáculo para crianças “A Laura quer!”, no Teatro nacional Dona Maria II, em Lisboa, e no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, em 2019.

Neste novo espetáculo, onde a personagem Laura volta a ser "um enigma", a música recorda "heroínas e heróis, bandas, cantoras e cantores que admirava desde muito jovem, e foram responsáveis por chegar à dança, por querer ser bailarina", acabando por ser uma homenagem "mais pessoal".

Ao nível dos textos, há uma seleção voltada para o ativismo e a vontade de potenciar a "união, o combate e a utopia", com o desejo de "agir, reagir, resistir, re-existir, permanecer no presente e ensaiar o desejo de um mundo novo e de novas formas de conviver", defende a coreógrafa.

Nesta linha, foram escolhidos textos de Gloria Jean Watkins, mais conhecida pelo pseudónimo bell hooks, autora, professora e teórica feminista, artista e ativista antirracista norte-americana, que morreu no passado mês de dezembro, aos 69 anos, o líder ativista ambientalista indígena brasileiro Ailton Krenak, e o romancista e ensaísta norte-americano James Baldwin, que um dia escreveu: "Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado".

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