A Companhia Olga Roriz completou 25 anos de existência a 12 de abril, mas a emoção de celebrar é abafada pelo cancelamento dos seus espetáculos e pela preocupação com o futuro.

Desde que todos os espaços culturais foram encerrados para cumprimento das normas de combate à pandemia do novo coronavírus, milhares de artistas ficaram impedidos de apresentar espetáculos e exposições.

"Esta situação é muito preocupante pela inatividade e incerteza com o futuro, mas acho que vamos sair daqui melhores. O regresso vai demorar muito tempo e vai ser diferente", declarou Roriz à agência Lusa.

A coreógrafa estava a preparar a estreia da nova peça de dança "Seis meses depois", que deveria ser apresentada na próxima semana no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, mas foi cancelada.

"No entanto, vamos conseguir pagar aos bailarinos da companhia porque os espetáculos vão ser pagos, o que dará alguma estabilidade", apontou.

Já há reagendamentos e a indicação de que os espetáculos reprogramados para setembro "deverão ser pagos a 40%, mas os adiamentos trazem outros problemas porque vão sobrepor-se a outros espetáculos que já estavam programados para o final do ano ou para 2021".

Em ano das "Bodas de Prata", a Companhia Olga Roriz tem estado a preparar um documentário, a edição de um livro e um projeto de tratamento do seu arquivo, que é extenso.

A equipa é composta por oito bailarinos, cinco membros da direção, e ainda dois técnicos de luz e som.

As residências pararam e as aulas estão a ser feitas ‘online’, numa tentativa de "reorganizar o trabalho", disse, sobre a escola de dança que a companhia inclui no seu trabalho habitual desenvolvido no Palácio Pancas Palha.

"A dúvida e a incerteza pairam no ar, mas temos de ter tranquilidade", comentou, indicando que a companhia vive também apoio da Direção-Geral das Artes, e candidatou-se a um apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Quanto às instalações atuais onde trabalham, não são garantidas: "O edifício é cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, mas podemos ter de sair a qualquer momento porque se encontra à venda. Mesmo assim, a autarquia diz que se isso acontecer nos encontrará outro espaço".

"Além da instabilidade que já se vive habitualmente no mundo artístico, este vírus trouxe um risco acrescido para os artistas. Ainda mais na dança, porque as pessoas tocam-se muito no seu trabalho", apontou.

A possibilidade do trabalho ‘online’ não é fácil para a área da dança porque "necessita de espaço, e é um trabalho de equipa".

"Vemos a Maria João Pires a dar um belíssimo concerto ao piano, através do Instagram, mas para nós não é possível", comparou.

Sobre a possibilidade de os espetáculos poderem voltar a acontecer, num primeiro momento, apenas ao ar livre, a coreógrafa diz que não é uma solução boa para tudo.

"Talvez no verão, e mesmo assim não dá para todos os espetáculos, depende do tipo de cenário", opinou a artista.

Olga Roriz considera ainda que a continuidade do financiamento do Estado "é muito importante para que os artistas continuem a trabalhar e possam viver com dignidade, mas há que pensar muito bem sobre o futuro".

A coreógrafa propõe, por exemplo, que os contratos com as autarquias incluam cláusulas que protejam os artistas.

O repertório da Companhia Olga Roriz na área da dança, teatro e vídeo é constituído por mais de 90 obras.

Criou e remontou peças para o Ballet Gulbenkian, Companhia Nacional de Bailado, Ballet Teatro Guaira (Brasil), Ballets de Monte Carlo, Ballet Nacional de Espanha, English National Ballet, American Reportory Ballet e Alla Scala de Milão.

Nascida em Viana do Castelo, em 1955, Olga Roriz estudou ballet clássico e dança moderna com Margarida Abreu e Ana Ivanova, ingressou na Escola de Dança do Conservatório Nacional de Lisboa e tornou-se primeira bailarina do Ballet Gulbenkian, onde foi depois convidada a coreografar.

Em 1995, viria a criar a Companhia Olga Roriz, desde 2014 instalada no Palácio Pancas Palha, cedido pela Câmara Municipal de Lisboa.

O seu repertório na área da dança conta, entre outras, com as peças "Pedro e Inês", "Inferno", "Start and Stop Again", "Propriedade Privada", "Electra", "Os Olhos de Gulay Cabbar", "Nortada", "Jump-Up-And-Kiss-Me", "Pets", "A Sagração da Primavera", "Antes que Matem os Elefantes" e "Síndrome".

Foi distinguida com a insígnia da Ordem do Infante D. Henrique (2004), Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores (2008) e o Prémio da Latinidade (2012), entre outros galardões.

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