“Pegar num tratado de sapiência, fazer dele um objeto cénico e lê-lo como se fosse uma partitura musical” é a proposta da companhia residente nas Caldas da Rainha para primeira estreia “pós-confinamento”, disse à Lusa o encenador do Teatro da Rainha, Fernando Mora Ramos.

O “Discurso sobre o Filho-da-Puta”, de Alberto Pimenta, sobe à cena na sala estúdio da companhia com um quarteto de cordas vocais (Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno) a dar voz ao texto “escrito para ser dito”.

Às qualidades rítmicas do texto juntam-se as composições de Miguel Azguime para, durante cerca de uma hora e 45 minutos, prender o espectador a um discurso que “vai do altar ao cabaré”, numa espécie de “retrato dos portugueses, escrito em 1977, mas ainda atual no que respeita aos males endémicos que [os] caracterizam”, considera o encenador.

Sendo a figura que dá título ao texto um “comemorativista, um amante das datas que celebram as mortes, um militante da acumulação do regresso do passado”, a peça conta a quatro vozes e vários tons, como se desenvolve “o vírus da filha da putice” e como, ao longo dos tempos contribuiu para subirem na vida figuras peritas em "sacanear o parceiro, na traição dos ideais que se diziam defender, na ortodoxia burra, no complô, na manobra obscura, na capacidade de insinuação, no jeito particular para oportunamente mentir, no faz que faz e o faz que não faz para tudo ficar na mesma e parecer o contrário”.

Um sermão burlesco contemporâneo descrito por Mora Ramos como “um grito gramaticalmente impecável, rigoroso de sentidos e forma, pela liberdade livre e contra o preconceito e o amiguismo hipócrita e nepótico que continua a constituir os modos da sociabilidade [portuguesa], muito atravessados de ambições de poder e poderes de facto”.

Técnicas para “subir na vidinha” que agora sobem ao palco durante duas semanas (de 2 a 11 de julho), de quarta a sábado, admitindo a companhia que as apresentações possam prologar-se “por mais uma semana, se houver muitas reservas”, dado as medidas de contenção da pandemia de COVID-19 limitarem a capacidade de sala a 35 lugares.

A peça partiu de uma 'performance' que deveria ter sido integrada no espetáculo de rua “Ilha do Cravos”, que a companhia planeava apresentar no dia da cidade, 15 de maio, mas que foi cancelado, devido à pandemia.

Em maio o Teatro do Rainha anunciou a estreia para o dia 24 de junho, mas “as medidas de confinamento atrasaram o início dos ensaios” o que, segundo Mora Ramos, levou ao adiamento da apresentação para o mês de julho.

Alberto Pimenta é escritor, poeta e ensaísta, distinguindo-se na literatura contemporânea pelo caráter crítico e irreverente da sua obra, que abrange poesia, ficção, teatro, linguística, crítica, ensaio, happenings, performances, colagens.

O “Discurso sobre o Filho-da-Puta” foi escrito em 1977, ano em que o autor se celebrizou com uma performance no Jardim Zoológico de Lisboa, trancando-se numa jaula ao lado de outra onde estavam dois macacos, com uma tabuleta indicando "Homo sapiens".

O livro foi o mais traduzido de Alberto Pimenta.

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