Diretor e cofundador do Teatro da Comuna, em Lisboa, João Mota vai estar a partir de hoje à noite, e até dia 23 de outubro, no papel de Bernarda Alba, da peça de Federico García Lorca, encenada por Hugo Franco, que conta também com as participações de Carlos Paulo e João Grosso.

O espetáculo insere-se nas comemorações dos 50 anos do Teatro da Comuna, de que João Mota foi um dos fundadores, e apanha-o a fazer 80 anos na última noite de apresentação do espetáculo, 22 de outubro.

Um regresso ao cimo do palco, ao fim de duas décadas, que aguarda com ansiedade e temor, porque tem medo de se enganar, porque tem mais dificuldade em memorizar, porque vai enfrentar a plateia a impor-se a mesma exigência que tem para com os seus atores e receia não estar à altura, mas o sentimento que mais se sobrepõe a tudo é o “prazer” de voltar a fazer o que mais gosta e que lhe dá a maior sensação de liberdade, como contou, no final de um ensaio para a imprensa.

O regresso aos palcos fá-lo lembrar-se do primeiro dia em que deu aulas, há 52 anos, conta, evocando o diretor de teatro britânico Peter Brook, com quem trabalhou em Paris e que considera um mentor, que dizia que “o grande prazer é a 'grande ansiedade de' e, ao mesmo tempo, o grande medo”, que João Mota substitui por “temor”, palavra de que gosta muito.

A Casa de Bernarda Alba

“É interessante, o entrar na peça levou-me de novo a esse lado: a ansiedade de ver como é, o grande prazer, mas um medo, de pânico, ao mesmo tempo”.

No dia do ensaio confessa que lhe faltaram palavras, que são coisas que acontecem nos ensaios, “mas quando acontece, acontece também muitas vezes nas peças, e é preciso uma coragem muito grande. E essa coragem, muitas vezes eu deixei de a ter porque eu exijo muito do ator, mas bastante mesmo, e quando sou ator tenho de dar o exemplo e não dou, na justeza da palavra, no rigor e isso assusta-me”, confessou.

Deu aulas e nunca faltou, nem à Comuna, nem à Escola Superior de Teatro e Cinema, nem à Fundação Calouste Gulbenkian, e adotou um filho com dois anos e meio.

Nesse tempo, decorar textos começava a ser difícil, mas agora é ainda mais difícil pela idade, afirma, às portas de fazer 80 anos, que considera “uma bonita idade” e que vai coincidir com as suas apresentações em palco por mero caso.

João Mota não esconde a felicidade de voltar a representar, uma das coisas que mais gosta de fazer, pela liberdade que lhe proporciona, a da improvisação, a da criação.

“Um teatro sem a improvisação, sem deixar o ator percorrer livremente o percurso da personagem, se é imposto… nós não somos marionetas. Peter Brook tem uma frase de que gosto muito: ‘o ator é o criador onde habita o texto’”.

“Eu sou livre de criar, um criador. Antigamente o ator era um ‘debitador’ de textos. Eu sou desse tempo, do teatro nacional, do Amelia Rey Colaço, com grandes atores, mas éramos ‘debitadores’ de textos, de tal maneira que comprávamos as encenações aos franceses e depois havia um ensaiador que ensaiava em português aos atores (…), estava tudo escrito e nós tínhamos de fazer o que lá estava. Isso é capar a criação toda. Eu fui educado assim até ir para o Peter Brook”, acrescentou.

Para João Mota, “cada um ser dono de si próprio é maravilhoso, criando depois essa unidade, que é função do encenador”.

Questionado sobre como é interpretar Bernarda Alba, uma mulher dura, que impõe em casa um regime opressivo e austero e educa as filhas à luz de valores patriarcais e machistas, com que foi criada, João Mota diz que “ainda anda à procura dela”.

A dificuldade reside em encontrar nesta mulher a revolucionária, que João Mota descobriu numa improvisação existir, porque Bernarda Alba também não gosta das mulheres que a antecederam e que a criaram dentro daquele padrão, e identifica-se sobretudo com a filha mais nova, a que rejeita as imposições da mãe e se revolta.

A ideia de encarnar Bernarda Alba não foi sua, foi um convite do encenador Hugo Franco, que encontrou em João Mota todas as características que queria para aquele papel, e após uma recusa inicial, devido a um problema de saúde, aceitou com entusiasmo.

Esse entusiasmo da representação continua a acompanhá-lo ao fim de mais de 70 anos de ator, uma profissão a que se dedica com “devoção”, como acha que deveria acontecer com todas as profissões.

Lamenta que isso não aconteça e justifica-o com uma perda de valores que se vive na atualidade e com a qual “o final da peça tem muito a ver”.

“As pessoas deviam ser livres, livres, e a minha opção é essa: nunca tive partido e não vou ter partido, espero que deus me continue a dar esse lado da paixão de ser livre, que a paixão do teatro é esse lado livre”, afirmou.

Para João Mota, a chave é a transgressão, “poder transgredir à vontade” sem ninguém que o proíba, sem pertencer a nenhum partido, clube, associação, ou qualquer coisa que o coíba ou condicione.

“Sou livre, isso é a melhor coisa que há na vida e o teatro leva-nos a isso, ajuda-nos muito a esse sentido de liberdade, porque se não tivermos essa liberdade, estamos sempre a copiar os outros. Eu para deixar de copiar, a certa altura, sigo os mestres, mas os mestres o que mais gostam é quando nos vão ver, já estarmos noutro sitio, pode ser uma continuidade, mas já é outra coisa. Isso é maravilhoso porque estamos sempre em transgressão”.

Replicando a ideia na esfera nacional, afirma que “o 25 de Abril não foi mais do que uns soldados e uns militares que transgrediram as regras normais, senão não era uma revolução. Mas a revolução é todos os dias, saber transgredir. Transgredir, transgredir, transgredir”.

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