Uma sala clássica, com elementos a fazer lembrar outros tempos, mas onde já vagueia um espírito pronto para receber novas aragens. É assim que o Sapo On The Hop é recebido no Tivoli.

Depois de tirada a típica foto para o instagram (check!) estamos prontos para receber os Clã. Em modo de vulcão em ebulição, a banda portuense entra no palco do Tivoli como figuras pretas, sem feições, acompanhados de um cenário florestal que rapidamente entra em Curto Circuito. A música com letra de Sérgio Godinho começa a ecoar, o cenário místico propaga-se, o vermelho domina e sabemos que estamos perante os Clã. A energia está lá. A força está lá. A entrega está lá.

Depois de entrarmos em Curto Circuito, graças à efervescente Manuela Azevedo – vocalista da banda -, com a certeza de que o jogo de luzes em palco vai fornecer grandes momentos, e após umas investidas no rock psicadélico, os Clã tornam a sala elétrica com Basta, uma das canções mais fortes do álbum. O auditório está praticamente cheio, e o público presente adere facilmente à ritmada Basta, um exemplo do ritmo único deste clã.

A pressão arterial acalma, e Manuela Azevedo faz o primeiro speaking da noite. “A última vez que cá estivemos foi numa gala de televisão. É tudo muito rápido”, confessa. “Agora, com mais calma…”, e assim foi: seguiu-se mais uma das novas canções, do álbum Corrente, A Paz Não Te Caí Bem. “Fala-nos de paz ou de alguém que não gosta muito dela”, diz Manuela Azevedo antes de a começar a cantar. E mal o faz, dada a tranquilidade da canção, é possível ouvir e sentir o alcance da voz da vocalista.

Depois de GTI, um regresso ao passado, a banda volta ao novo disco de originais para apresentar a música-anfitriã de Corrente: Outra Vez rola num ritmo acelerado e, apesar de estarmos sentados, facilmente nos sentimos numa pista de dança onde Manuela Azevedo seria, sem margem para dúvidas, a rainha da noite, sem excesso. “Sei que me vou apaixonar outra vez”, ouve-se na letra da canção, e o público acena afirmativamente.

Mais uma vez, a passagem para a próxima música é feita de contrastes. Avança Rosa Carne, de 2004, e dá-se um dos momentos mais agressivos da noite, para deslumbre da banda que se mostra mais rock n’roll. Altura para mais uma confissão de Manuela Azevedo: “nestes concertos há sempre um friozinho na barriga; para acalmar o friozinhos nada como voltar a canções com mais palco”. Segue-se, então, a badalada Sexto Andar – simples e direta -, uma ode às próprias canções, ao significado, àquilo que transmitem às pessoas, o que às vezes representam no quotidiano rotineiro. “Algumas canções são feitas para nós”, remata Manuela Azevedo. Esta é a meta-canção dos Clã, uma espécie de lembrete do porquê de continuarem a fazer música.

Depois é a vez da música do “homem perfumado”, Samuel Úria, que fez a letra de A Canção de Água Doce. O autor está presente, e até há tempo para um engano: “Espera aí. Podemos começar outra vez? Deu-me uma branca!”, confessa Manuela Azevedo entre risos, logo acompanhada pelo público presente. A sequência é ilustrada por várias tonalidades da floresta de fundo. A calma de A Canção de Água Doce é terminada com Zeitgeist, mais um tema de Corrente.

O momento seguinte é perigoso. A letra de Regina Guimarães faz feridas à medida que Manuela Azevedo interpreta Conta de Subtrair. “O mundo é dos fortes”, ouve-se no monólogo de Azevedo entre os refrães da canção. Tira a Teima alivia a atmosfera e traz até nós um dos temas mais conhecidos dos Clã que fez vibrar os fãs. Tempo ainda para mais dois novos temas: Outro Mundo, de Sérgio Godinho, e A Ver Se Sim.

O grande regresso ao passado é com Sopro do Coração, com um belo momento de acapella – quase celestial -, logo seguida pela fervilhante Rompe o Cerco, o single de apresentação de Corrente. De rompante entra Museu do Mundo, uma das músicas que nos faz viajar, literalmente, e pensar em sítios, em lugares, em esquinas, em ruas estreitas e ruas largas.

Sem avisar, Manuela Azevedo avança com Dançar na Corda Bamba e fica escolhido o momento alto da noite, sem margens para dúvidas. Esta mistura entre pop orelhudo, com significado e sentido, e um rock n’roll de atitude fazem de Clã uma banda exímia ao vivo. “Foi uma bela viagem esta noite”, diz-nos Manuela Azevedo. Chegados à foz deste concerto já só há corrente para Artesanato, de Sérgio Godinho – mais uma vez -, e Problema de Expressão, uma das mais conhecidas do grupo. A chegada a jusante é arriscada: Quase Um Qasar fecha o álbum, e também este concerto de apresentação. Um risco que vale a pena correr.

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