Em menos de uma hora, a peça que vai estar em cena a partir de quinta-feira no Espaço Oficina, em Guimarães, coloca em cena as atrizes Diana Sá, Gisela Matos e Susana Madeira, ora como migrantes, ora forças da autoridade, que atravessam várias eras de migrações, desde o “salto” do Portugal dos anos 1960 e 1970 à atual crise que empurra pessoas para lá das fronteiras da Europa.

“[É uma construção social] a ideia de que uma pessoa nasce numa parte do mundo e tem acesso a uma série de coisas e nascendo noutra tem acesso a outras, nomeadamente um passaporte. Por nasceres na Europa podes circular livremente pelo continente europeu e nasces noutro sítio e não podes. Essa construção que fazemos para nos proteger, proteger o nosso património, o nosso território, vem de uma ideia do medo do outro. Esse medo sempre existiu”, disse aos jornalistas Sara Barros Leitão, após um ensaio.

A atriz, que em “Há Ir e Voltar” assina a encenação e dramaturgia, realçou que o que está a mudar é a maneira de responder a esses receios: “Agora acho que se tornou cada vez mais, sim, desumana, a forma como olhamos e cuidamos destas pessoas e é também um olhar para os movimentos de extrema-direita que estão a assombrar a Europa inteira”.

“Há um neofascismo a crescer que não tem qualquer pudor em falar sobre migrantes de bem e migrantes de mal, que cultiva o medo, o medo pelo outro, e em Portugal não podemos esconder que esse movimento cresce, que esse discurso cresce e que ouvimos, mesmo recentemente na casa da democracia, discursos contra todas as políticas de migração que Portugal tem, mas distinguindo aquilo que são as migrações portuguesas dos anos 1960 e 1970 como migrações diferentes, quando na verdade está tudo na mesma base, que é a procura pela sobrevivência”, acrescentou Sara Barros Leitão.

Na peça, as três mulheres – figura que a encenadora reconhece como “muito comum” no teatro, em termos mitológicos – iniciam um dos seus percursos em silêncio, ao longo de minutos, para mais tarde se sentarem a comer uma maçã, que representa “o início de tudo, o fruto proibido, que representa também todas as opressões” do mundo judaico-cristão.

No desenrolar da obra, que, para lá da maçã, arranca o texto com nova referência bíblica (“No princípio, esqueces-te do verbo, porque ainda não falas”), as três atrizes recordam o espectador das várias crises recentes que levaram a ondas migratórias, desde a ‘troika’ às guerras.

“A minha geração passou por várias crises, milhares delas, e nos últimos dois anos foram várias e agora estamos em mais uma, seja económica, social, seja em termos humanitários. Mas a crise dos refugiados esteve sempre lá e vai continuar a estar”, disse a atriz nascida no Porto, em 1990, que recordou a probabilidade de também em Portugal se poder fazer sentir o impacto das alterações climáticas numa escala capaz de gerar vagas de refugiados.

A peça reflete sobre o conceito de “migrante” face ao de “refugiado” ou ao rótulo de “ilegal” (“ilegal quer dizer que é contrário à lei”), entre outras designações utilizadas para classificar quem sai do seu país, à força ou não, lembrando ainda os “vistos gold”.

Em “Há Ir e Voltar”, há um apontar do dedo literal ao espectador, sentado na plateia, que à semelhança dos papéis assumidos pelas três atrizes – muitas vezes em uníssono – também é encarado na sua duplicidade: alvo a abater e/ou motivo de terror.

De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR, na sigla portuguesa), o número de pessoas deslocadas à força a nível mundial, em 2019, era de 79,5 milhões, 26 milhões dos quais refugiados. Só este ano, devido à invasão da Ucrânia pela Rússia, estão registados 7,2 milhões de pessoas como refugiadas desse conflito. Em 2021, morreram ou desapareceram três mil pessoas só no Mediterrâneo ou no Atlântico, a tentar chegar à Europa, segundo números da ACNUR.

“Há Ir e Voltar” fica em cena até 9 de outubro, com espetáculos às quintas e sextas-feiras às 21h30, ao sábado às 19h00 e, ao domingo, às 17h00, havendo sessões com Língua Gestual Portuguesa nos dias 23 de setembro, 1 e 9 de outubro, e com audiodescrição nos dias 25 e 30 de setembro e 8 de outubro.

O facto de a peça permanecer em Guimarães três semanas e não ter perspetiva de circulação não é acaso: ao longo da conversa com os jornalistas, Sara Barros Leitão, em funções como “diretora-artista” do Teatro Oficina até ao final deste ano, realçou a “raridade” que é terem tido quatro meses para ensaiar.

“Podemos fazer uma coisa que é muito revolucionária em relação àquilo que são as 'programações-festival', em que todos os programadores caem na esparrela, que são espetáculos de um ou dois dias. Podemos ficar três semanas, talvez uma quarta, temos tempo para isso, temos espaço, as condições”, afirmou.

Sara Barros Leitão acrescentou: “Pode tudo correr mal, podemos não ter público, mas estamos cá para aceitar que podemos não ter público, pode haver sessões canceladas, mas acho que pode ser uma boa notícia, porque o caminho só se faz caminhando e não dá para estar como artista sempre a dizer ‘ai que pena fazermos só dois dias’ e no único momento que tenho em que posso decidir quanto tempo estou em cena querer fazer só dois dias ou circular”.

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