Escrito entre 1941 e 1943, e lançado em 1944, “Kaputt” não era publicado em Portugal há 36 anos, desde 1984, quando as Publicações Europa-América o editaram, na coleção Livros de Bolso.

Agora, o grupo editorial 2020, através da chancela Cavalo de Ferro, volta a colocar no mercado este livro “cruel e alegre”, nas palavras do próprio autor, numa nova edição revista, com tradução de Amândio César, a partir do original italiano.

“Relato impiedoso e lírico da Europa em pleno teatro bélico da II Guerra Mundial”, “Kaputt” é, “acima de tudo, um livro surpreendente e fascinante, capaz de dividir o leitor perante a beleza da sua escrita – hiper-realista e fantástica, excessiva e barroca – e o espetáculo hílare e grotesco das cenas terríveis que descreve”, revela a editora.

“Kaputt” (palavra derivada do alemão, que significa arruinado e estilhaçado) revela um continente inteiro em chamas, atirado para o abismo da desintegração política e moral, descrito por Curzio Malaparte, a partir das suas vivências diretas, enquanto correspondente de guerra do jornal Corriere della Sera.

“É desta tentativa impossível de simplesmente relatar o que vê e o que ouve, da convivência íntima com o lado inimigo, da desenvoltura e à vontade com que se relaciona com altas patentes alemãs, priva com príncipes, ministros do III Reich e embaixadores, frequenta os salões nobres e experiencia o sofrimento de soldados e mujiques, que nasce ‘Kaputt’ e a sua suíte picaresca de histórias que se vão desfiando, uma a uma, para deleite e horror das elites europeias e gerações de leitores”, descreve a editora.

A escrita do livro foi iniciada em plena frente russa, durante o verão de 1941, na aldeia de Pestcianka, na Ucrânia, em casa de um camponês.

“Instalava-me todas as manhãs no seu jardim, debaixo de uma acácia, para trabalhar, enquanto o camponês, sentado no chão, perto da pocilga, afiava as foices ou cortava as beterrabas e os rabanetes para os porcos”, descreve Curzio Malaparte, no prefácio da obra, em que conta a história do manuscrito de “Kaputt”.

A obra foi depois continuada durante a estada do autor na Polónia e na frente de Smolensk, em janeiro e fevereiro de 1942, e posteriormente, até julho de 1943, na Finlândia.

Antes de regressar a Itália, o autor dividiu o manuscrito em três partes, confiando-as a três diplomatas em Helsínquia: o ministro de Espanha na capital finlandesa, que deixou aquele posto para assumir o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Madrid; o secretário da Legação da Roménia, que partiu para ocupar o mesmo posto em Lisboa; e o adido de imprensa da Legação da Roménia, que regressou a Bucareste.

Logo que teve conhecimento da queda de Mussolini, Curzio Malaparte regressou a Itália e foi em Capri, durante o mês de setembro (de 1943), que acabou o último capitulo de "Kaputt".

"'Kaputt' é um livro cruel. A sua crueldade é a mais extraordinária experiência que tirei do espetáculo da Europa no decorrer desses anos de guerra", afirma o autor, acrescentando que "o herói principal" da história é Kaputt, "monstro alegre e cruel", para o qual foi escolhida esta palavra de origem alemã, que "significa literalmente: estilhaçado, acabado, reduzido a pedaços, perdido".

O escritor considera que nenhuma outra palavra estaria indicada para definir "o que é, presentemente, a Europa: um amontoado de detritos".

Curzio Malaparte, pseudónimo de Kurt Erich Suckert, que traduz a ascendência alemã, nasceu em 1898, em Prato, na Toscânia, perto de Florença.

Aos 16 anos, ainda a Itália não entrara na Grande Guerra de 1914-18, alistou-se como voluntário no exército francês.

Apoiante, numa fase inicial, do movimento fascista italiano e jornalista prolífico, Malaparte publicou, em 1931, o livro “Técnica do Golpe de Estado”, o que lhe valeu uma pena de prisão de cinco anos.

Durante a II Guerra Mundial, foi correspondente de guerra do Corriere della Sera, experiência que serviu de mote para os seus livros mais célebres, “Kaputt” e “A pele”.

Depois da guerra, Curzio Malaparte, cujas afinidades políticas resvalaram para a esquerda e o ateísmo, converteu-se ao catolicismo, continuou a escrever, dedicando-se também ao teatro e ao cinema, dirigindo o filme "Cristo Proibido", premiado nos festivais de Berlim e de Cannes de 1951.

Morreu em Roma, em 1957, aos 59 anos.

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