Há  50 anos, no dia 8 de maio, de 1970, chegou "Let It Be", o último álbum editado pelos  Beatles - já o filme com o mesmo nome estreou cinco dias depois, a 13 de maio. Nas últimas cinco décadas, as canções gravadas pelo grupo britânico, provavelmente o mais marcante da história da música pop, foram banda sonora de muitas vidas e continuam diariamente a ser descobertas pelas gerações mais novas.

As opiniões sobre qual é, na verdade, o último disco da banda de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr dividem-se: "Let It Be" foi o último a ser editado, mas foi gravado antes de "Abbey Road", que chegou às lojas a 26 de setembro de 1969, altura em que John Lennon anunciou aos companheiros que ia deixar o grupo.

Antes do início das gravações, as férias em Portugal

Os versos e as melodias de "Let It Be" começaram a nascer antes de "Abbey Road", em janeiro de 1969, em estúdios de cinema e não num estúdio de gravação de música - a ideia era gravar um programa de televisão ou um filme documental, mas nem tudo correu bem.

Dias depois da edição do álbum chegou o documentário, "Let It Be", que se chamou "Improviso" em Portugal, e que ganhou o Óscar de Melhor Música/Banda Sonora Original de Canções (um galardão que hoje não existe). O filme, realizado por Michael Lindsay-Hoog, mostra imagens do fim da banda - as câmaras captaram discussões, desinteresse e algumas brigas durante as gravações.

Livro
Livro "Beatles em Portugal" | Recortes da passagem de Paul McCartney por Portugal

O nascimento de "Let It Be", que inicialmente se chamou "Get Back", começou nos primeiros dias de 1969. Semanas antes de entrar na "aventura", Paul McCartney, decidiu tirar férias para recarregar energias. O local escolhido? A Praia da Luz, no Algarve. "Tem graça que o Paul McCartney esteve em Portugal mesmo antes de irem filmar e de começarem a gravar 'Let It Be'. Ele esteve em Portugal em 1968, em dezembro", lembra Teresa Lage, produtora/ coordenadora de produção da RFM desde 1990 e, juntamente com Luís Pinheiro de Almeida, autora do livro "Beatles em Portugal".

"Ele era muito amigo do Hunter Davis, que foi a pessoa que fez a biografia oficial dos Beatles, e que gostava muito de Portugal - vivia na Praia da Luz, numa quinta chamada a Quinta das Redes. O Paul McCartney, em dezembro de 1968, e a nova namorada Linda [Eastman] vieram a Portugal passar uns dias a casa dele - veio até Lisboa e foi de táxi para o Algarve. Na altura, houve um jornalista do Diário Popular que o descobriu lá e ele disse que os Beatles iam continuar, que tinham uns projetos e que iam filmar. Ele falou nisso e foi depois para Inglaterra filmar o 'Let it Be'", recorda Teresa Lage, que esteve com Paul McCartney em 1993, 1999 e 2004, e com Ringo Starr (1992 e 1998).

Teresa Lage . Paul McCartney e Luis Pinheiro de Almeida Dezembro de 1987 Rushlake Green, Inglaterra
Teresa Lage, Paul McCartney e Luís Pinheiro de Almeida | dezembro de 1987, em Rushlake Green, Inglaterra

"A ideia deles era gravar os Beatles a ensaiar e os ensaios iriam terminar com um concerto, fazendo assim uma espécie de filme documental e um disco. Só que começaram a filmar e não correu bem - o cinema tem horários diferentes da música... começar a tocar às oito da manhã não combina com a vida de um músico. No início, as gravações correram um bocado mal e acabaram por se mudar para os estúdios na [sede] Apple", recorda a produtora da RFM, que já assistiu a mais de 15 concertos de Paul McCartney.

Depois de se mudarem para o estúdio na sede da Apple, a sua editora, na manhã de 30 de janeiro de 1969, decidiram subir ao telhado do prédio para um concerto que ficaria para a história por ser a última atuação pública que dariam. Mas as gravações do álbum acabaram por ir para a gaveta e só viram a luz do dia depois do lançamento de "Abbey Road", em 1969.

Veja a atuação dos Beatles no telhado da Apple:

"Aquilo ficou um bocado pendurado porque o ambiente não era muito agradável. A ideia era fazer um filme e o ambiente de gravação não é igual ao que os músicos estão habituados. As gravações ficaram um bocado encostadas e pelo meio gravaram o 'Abbey Road' e, portanto, o 'Let It Be' só saiu em 1970", recorda Teresa Lage.

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Antes do lançamento de "Let It Be", as gravações das canções "andaram de um lado para o outro", tendo acabado nas mãos de Phil Spector. "O John Lennon mandou-as ao Phil Spector, que acrescentou umas orquestras e uns coros femininos na 'The Long and Winding Road'. O Paul Mccartney não gostou muito. Como já estavam cada um para o seu lado, foi um álbum que saiu de uma maneira complicada - os Beatles já estavam mais separados do que outra coisa qualquer", recorda a repórter da RFM.

Um final anunciado

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O fim dos Beatles já estava anunciado, mesmo antes de "Let It Be" chegar. Um mês antes, em abril de 1970, Paul McCartney fez a sua estreia a solo e em comunicado anunciou o fim do quarteto. "O Paul Mccartney lançou um mês antes, em abril, o seu primeiro disco a solo e numa auto-entrevista que fez, quando perguntou a si próprio se achava se ia continuar a trabalhar com os Beatles, respondeu que achava que não. E, então, os jornais publicaram que os Beatles tinham acabado. O 'Let it Be' saiu um mês depois", recorda Teresa Lage em conversa com o SAPO Mag.

A separação dos Beatles tinha sido mantida em segredo durante largos meses pelos quatro músicos – Paul McCartney, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison -, mas acabou por ser tornar pública daquela forma enviesada. “A maneira como terminámos foi bastante lamentável. Sempre disse que os Beatles deviam ter acabado debaixo de uma nuvem de fumo, com roupas mágicas e envelopes cheios de dinheiro. É pena, mas não aconteceu. John [Lennon] sempre falou sobre isso como um casamento e um divórcio, e na verdade era assim”, afirmou Paul McCartney em 2004 numa longa entrevista à revista Uncut.

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Naquele início de década, os músicos estavam já em esforço enquanto banda, ao mesmo tempo que se concentravam em projetos individuais. Em 1970, todos lançaram álbuns em nome próprio.

Os meses que antecederam o anúncio tinham sido um acumular de problemas e divergências relacionados com a dinâmica da banda, depois da morte do agente Brian Epstein, e da entrada de um outro manager, Allen Klein.

"Quem não sabe destas histórias, gosta na mesma do disco. Tem lá pérolas. Tem o 'Let it Be', o 'The Long and Winding Road' e o 'For You Blue', de que eu gosto muito. Tem mais músicas boas do que muitos álbuns bons de outras pessoas", sublinha Teresa Lage, acrescentando que o álbum "ficou marcado pelo fim do grupo e com uma história mais tristes associada", frisa.

O músico João Só, fã assumido dos Beatles partilha da mesma opinião. "Gosto da honestidade da coisa, acho que é um disco muito cru. É capaz de ser o disco dos Beatles com o pior som, acho que o Phil Spector deu cabo do disco", frisa o artista português, lembrando que não consegue ser parcial em relação à banda de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. "Eles são da casa, em minha casa só ouvia Beatles, Elvis Presley e Cat Stevens. A minha mãe e as minhas tias faziam questão que nós tratássemos os Beatles por tios. É uma relação tão afetuosa que não consigo ser parcial, se a música é boa, se eles são os melhores ou se são os piores. Para mim, há os Beatles e depois há os outros", confessa.

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Apesar de ter agradado aos fãs, Paul Mccartney não ficou feliz com os arranjos do álbum e, em 2003, lançou uma versão "despida" do disco - "Let It Be... Naked" -, retirando os arranjos de Phil Spector. "Fez o disco como ele gostava que tivesse sido feito inicialmente, mais simples - a ideia inicial deste disco era o regresso às raízes", lembra Teresa Lage, recordando que o nome inicial do disco era "Get Back".

"Adoro o 'Let It Be... Naked' e não acho brilhante ouvir o 'The Long and Winding Road' com orquestra. Acho que é um exagero. Mas o 'Let It Be' tem algumas das minhas canções preferidas - tem a 'Dig a Pony', que era uma das músicas que o John Lennonn mais odiava e que é uma das que eu mais gosto. Tem o 'I Me Mine', muito, muito boa. Depois tem o 'Let It Be' e 'The Long and Winding Road', do Paul Mccartney. Todos os discos dos Beatles são bons. Quem me dera", sublinha João Só em conversa com o SAPO Mag. "Há malta que faz carreira baseada numa estrofe e meia de uma música dos Beatles", acrescenta.

"Admiro os Beatles e admiro o facto de eles pensarem... 'vamos lá ser filmados de manhã à noite e ver como é que corre'. Não correu bem e fizeram o 'Abbey Road' que é um disco glorioso. Mas 'Let It Be', apesar de não ser um disco glorioso e positivo, é o 'Let It Be' dos Beatles. O Ringo Starr dizia, em relação ao 'White Album', que não era o disco preferido dele... mas o que isso interessa? É o 'White Album' dos Beatles", acrescenta o músico.

50 anos celebrados com documentário de Peter Jackson

Para celebrar os 50 anos do lançamento de "Let It Be", será lançado, em dezembro, um documentário sobre o 12º e último álbum de estúdio dos Beatles. O projeto, que está nas mãos de Peter Jackson, oscarizado pela saga "O Senhor dos Anéis", vai usar 55 horas de imagens nunca antes divulgadas e 140 horas de áudio das gravações no estúdio entre 2 e 31 de janeiro de 1969.

Peter Jackson salientou que é "como se uma máquina do tempo nos transportasse de volta a 1969 e permitisse sentarmo-nos no estúdio a ver estes quatro amigos a fazer juntos grande música".

O realizador garantiu ainda que o filme vai ser a grande experiência com que os fãs dos Beatles há muito sonhavam. Peter Jackson confessou ainda que ficou aliviado por descobrir que a realidade é muito diferente das imagens que o filme de 1970 mostraram e que deixaram no ar a ideia de que os membros se desentenderam e se afastaram ainda mais ao criar o álbum.

"Pelo que já sabemos, o filme vai ter imagens que não estão no filme original - no filme original, decidiram  as imagens das pessoas que não eram da banda", conta Teresa Lage. "Pode ser que agora, nas filmagens que recuperaram, apareça toda a gente", acrescenta.

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50 anos depois, as canções dos Beatles continuam a conquistar novos fãs. "É fascinante porque eles, hoje em dia, são atuais - nos festivais, há pessoas com t-shirts dos Beatles e isso não acontece com muitas bandas", frisa Teresa Lage. "Eu apanhei os Beatles nos anos 1970, mas é giro que as gerações seguintes também apanharam os Beatles. E, nestes últimos anos, em que cada pessoa pode descobrir as coisas por si, continuam a conquistar mais fãs", acrescenta.

Os Beatles duraram uma década, profundamente impactante na cultura popular, como explica o jornalista Luís Pinheiro de Almeida, admirador da banda, no livro "Beatles em Portugal" (2002): "Os Beatles são uma parte indissociável da civilização do século XX e, mesmo extintos na década de 1970, prolongam a sua influência no século XXI".

Atualmente, já só estão vivos dois dos quatro Beatles: Paul McCartney, com 77 anos, e Ringo Starr, baterista, com 79 anos. John Lennon, guitarrista, vocalista e coautor de grande parte do repertório dos Beatles com McCartney, foi assassinado em 1980, quando tinha 40 anos, e George Harrison, guitarrista, morreu em 2001 com 58 anos.

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