Editado em Portugal pela Companhia das Letras, “A noite da espera”, primeiro volume de uma trilogia intitulada “O lugar mais sombrio”, acompanha Martim, o protagonista, um jovem que se muda de São Paulo para Brasília com o pai, nos anos 1960, após uma separação forçada e traumática da mãe, cujo verdadeiro motivo não chega a conhecer.

Em Brasília trava amizade na universidade com adolescentes de variadas classes sociais, desde um filho de embaixador até ao filho de uma empregada doméstica, unidos por um projeto cultural e pela luta contra o cerco do regime.

Uma das primeiras pessoas que Martim conhece quando chega à nova capital federal é Jorge Alegre, um português, dono de uma livraria, a Encontro, que desde logo o ajuda, entre outras coisas, arranjando-lhe emprego na sua loja.

“Jorge Alegre foi inspirado num livreiro, Vítor Alegria, do Porto, que fugiu do salazarismo nos anos 60. Ele foi para o Rio de Janeiro e depois foi para Brasília, onde fundou a livraria Encontro, que foi um ponto de encontro e de resistência, de vanguarda. O primeiro ato feminista de Brasília foi realizado na livraria dele”, contou o autor em entrevista à Lusa.

Quando lançou o seu livro no Brasil, Milton Hatoum reencontrou Vítor Alegria, com mais de oitenta anos e quase cego, mas ambos se reconheceram a se emocionaram.

“Ele me disse uma coisa que me impressionou: ‘Vocês eram os meninos que vinham roubar os livros da minha livraria e eu deixava roubá-los’. Porque ele dava livros, para os estudantes que não tinham dinheiro para comprar. Ele não o permitia aos filhos do poder, mas ele dava livros aos estudantes mais humildes que não podiam comprar, emprestava-os e não os pedia de volta, e eu me lembro muito bem disso. A minha primeira formação de leitor em Brasília foi graças ao livreiro Vítor Alegria, ao Jorge Alegre do romance”, recorda.

Hoje tem uma gráfica, edita livros ainda, e é muito ativo, mas como já não consegue ler, a filha leu-lhe este romance, e “ele gostou, ficou emocionado”.

“Enfim, são essas recompensas: a gente se encontra tanto tempo depois, eu já não sou mais aquele menino, nem ele é mais aquele livreiro, mas ele foi importante para toda uma geração de leitores jovens em Brasília”.

Neste meio tempo, Vítor Alegria foi preso, torturado, “sofreu muito”. Em 1973 fecharam-lhe a livraria, e “foi transferido para o Rio num avião da FAB [Forças Armadas do Brasil], foi um horror”, contou o escritor, adiantando que, no segundo volume da trilogia, aparecerá um pouco da sua história.

Há muitos outros episódios do romance que se baseiam na vida e experiência do autor, mas Milton Hatoum sublinha que o livro não é biográfico, porque “quando a biografia participa da ficção, já não é mais biografia, é ficção, é invenção”.

Apesar de ser “muito diferente de Martim”, a sua personagem, o escritor teve essa mesma experiência de sair da sua cidade, obrigado a ir para a capital, Brasília, uma “cidade artificial”, onde estudou arquitetura, tendo, mais tarde, procurado exílio em França, tal como o protagonista da sua história.

Saiu de Manaus, da Amazónia, com 15 anos, para ir viver sozinho em Brasília e estudar arquitetura, porque além de ter o curso, Brasília - a cidade imaginada pelo presidente Juscelino Kubitschek e concebida por Óscar Niemeyer - era, ela própria, “uma lição de arquitetura e urbanismo”.

“Era nossa utopia, na verdade. A última utopia realizada no Brasil foi Brasília, junto com todos os movimentos artísticos da década de 1950: a poesia concreta, a bossa nova e depois a tropicália, nos anos 60. Mas os anos 50 que foram auspiciosos para o Brasil, foi uma década de muita esperança, em que o Brasil podia caminhar num sentido mais humanista, menos desigual, mais fraterno”.

Mas tudo isso foi “interrompido brutalmente em 1964 com um golpe civil militar”. E quando Milton Hatoum chegou àquela cidade, em dezembro de 1967, encontrou e morou “numa cidade muito opressiva, muito vigiada”. Foi preso, assim como muitos dos seus amigos, e outros foram expulsos.

"Ir morar nessa cidade, sem a família, sem os amigos, sem ninguém, isso foi um trauma, e o medo que o Martim sentia, eu senti profundamente. Estar sozinho numa cidade sujeito a todo o tipo de arbítrio, de violência… A cena da prisão dos jovens é uma cena que eu vivenciei e reconstrui, e o colégio também, eu estudei nesse colégio, que foi fechado em 1971 pela ditadura, pelos militares, tal como na história”.

Nesta altura, já a “brutalidade era geral, começou em 1968, quando foi editado o Ato Institucional Número Cinco: Fecharam congressos, prenderam deputados muitos foram exilados, a tortura começou a ser aplicada sistematicamente e eu, na minha primeira juventude, com 15/16 anos vivenciei isso”, e essa experiência está no livro.

Milton Hatoum salienta, porém, que teve todo o cuidado para não tornar o romance “ostensivamente político”, ou seja, a política está lá, porque era inerente ao momento, mas há um drama subjetivo que é a mãe ausente, que não lhe escreve, não lhe estende gestos de amor e falha ou adia sistematicamente reencontros com o filho.

“A noite da espera” é pois uma metáfora daquele tempo e das “várias noites” que acompanham Martim, o protagonista.

“É a longa noite de trevas da ditadura brasileira, é a noite da espera pontual, em que de facto espera a mãe [num hotel, mas ela não aparece] e é também essa noite, esse lado sombrio que está na alma dele, no coração dele, que é a perda da mãe, que não sabe se vai voltar”.

Este “é um romance sobre a separação e a perda, várias perdas”, resume Milton Hatoum, que tem já preparados os outros dois volumes da trilogia: o segundo é ambientado em São Paulo, onde o autor viveu toda a década de 1970, depois de sair de Brasília, por “não aguentar mais a repressão, que era muito forte”, e o terceiro passa-se em França, onde também Milton Hatoum esteve exilado.

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