
"Um D. João Português", que terá nova apresentação no dia seguinte, 30 de abril, somará um total de doze representações, nas quatro cidades envolvidas no projeto - Montijo, Viseu e Guimarães, encontrando-se em curso as negociações com Setúbal. Em cada uma destas cidades haverá duas representações parciais da peça, e uma outra da peça completa, segundo o encenador.
"Como não gosto, nem consigo estar parado muito tempo, foi esta a forma que encontrei de voltar ao teatro após o fecho da Cornucópia e decidi regressar com esta adaptação que fiz do 'D. João', de Molière, por esta ser uma peça que me ficou 'entalada' e que não consegui fazer ao longo de uma vida de teatro", disse à Lusa o ator e encenador, durante a primeira leitura do primeiro bloco da peça - "Na Estrada (Da Vida) -, realizada no sábado à noite, no polo cultural da Junta de Freguesia do Afonsoeiro, no Montijo.
O encenador acrescentou estar a "gostar muito" do trabalho que está a realizar, "de portas escancaradas e em conjunto com o público", por se tratar de uma maneira de interagir e aprender com quem vai ao teatro.
A filosofia deste projeto assenta na vontade de desenvolver trabalho com atores locais, sem os impedir de realizar outras actividades, sublinhou.
"Por isso, acabámos por optar por fazer curtas estadias em várias cidades, permitindo, igualmente, que a população fora de Lisboa fique a conhecer-nos melhor e a conhecer melhor aquilo que achamos fundamental no teatro", frisou Luís Miguel Cintra.
O encenador e autor da dramaturgia explicou ainda que baseou a sua adaptação na versão de 'cordel', uma tradução anónima publicada em Lisboa no século XVIII, na qual o protagonista não vai para ao Inferno, como no original de Molière.
A acção centra-se num nobre mulherengo, que engana todas as mulheres com quem se vai casando, ao longo das cidades por onde passa.
D. João acaba por viver em fuga, ensombrado pelo homicídio que cometera, a morte do Comendador, pai de uma das suas conquistas.
"Para mim, esta peça representa muito do que está exposto no barroco - a 'vanitas' [vaidade] - e representa também a efemeridade da vida", explicou Luís Miguel Cintra ao público presente no Montijo, antes de dirigir a primeira leitura do texto.
Questionado pela Lusa sobre a possibilidade de repetir a experiência com outras peças de teatro, disse que tal não faz parte dos seus planos.
"Estou cansado e já não tenho idade para andar com as coisas às costas", disse, sublinhando que esta experiência foi a maneira que encontrou para "ultrapassar, por agora, o fecho da Cornucópia".
A peça conta com 16 atores, ligados ao percurso da companhia que dirigiu durante 43 anos: André Pardal, Bernardo Souto, Dinis Gomes, Duarte Guimarães, Guilherme Gomes, Joana Manaças, João Reixa, José Manuel Mendes, Leonardo Garibaldi, Luís Lima Barreto, Luís Miguel Cintra, Nídia Roque, Rita Cabaço, Rita Durão, Sílvio Vieira e Sofia Marques.
A estes juntam-se atores das cidades onde será representada. No Montijo contará ainda com a interpretação de Levi Martins e Maria Mascarenhas, da Companhia Mascarenhas-Martins, que coproduz a peça com o Teatro Viriato, em Viseu.
No início de 2018, a totalidade da peça, que está dividida em quatro atos, será representada em cada uma das quatro cidades que aderirem à iniciativa.
Neste novo projeto de Luís Miguel Cintra faz questão de partilhar o trabalho com atores e público.
"A ideia é, mais do que apresentar um produto cultural pronto a ser consumido, contactar verdadeiramente com a comunidade local, em diálogo e com a colaboração de estruturas ou entidades existentes, sejam grupos de teatro, escolas, associações culturais, teatros municipais, centros culturais, autarquias ou até grupos desportivos", escreve Luís Miguel Cintra numa reflexão sobre o espetáculo.
"Este projeto consiste, então (...), numa partilha de sessões de trabalho das diferentes fases de preparação com os espetadores interessados", lê-se na nota do encenador, na qual sublinha que as "formas de diálogo deverão estar adequadas aos hábitos e às necessidades do público envolvido em cada um dos locais visitados".
"D. João", a peça, constrói-se como um julgamento moral, embora se preste à análise dos mais variados temas, já que o protagonista e o seu criado Esganarelo atravessam diferentes locais, fugindo da má fama do libertino.
Para Luís Miguel Cintra, a história torna-se "pertinente", porque "volta a pôr em questão a responsabilidade ética dos comportamentos sociais e a moral".
"Tudo neste espetáculo a que chamei 'Um D. João Português' é imperfeito, ou melhor, inacabado, bastardo, hesitante, incerto", diz Luís Miguel Cintra, na reflexão sobre a obra.
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