As missas “Sancta Maria” e “Elisabeth Zachariae”, ambas provenientes da coletânea do compositor, dedicada a celebrações litúrgicas, impressa em Antuérpia, em 1621, têm aqui o seu primeiro testemunho gravado, assim como oito “Responsórios de Natal”, a quatro vozes, da coleção “Opuscula”, impressa em 1602, de acordo com a informação divulgada pelo grupo.

O programa do disco, intitulado “Masses”/”Missas”, inclui ainda o motete “Audivi vocem de caelo”, a seis vozes, uma das mais conhecidas obras de Duarte Lobo, composta sobre uma sequência do “Livro do Apocalipse”, que se contrapõe a outra raridade, “Alma redemptoris mater”, a oito vozes, uma das quatro “Antífonas Marianas”, igualmente publicadas pela Officina Plantiniana, da Flandres, casa que se destacou ao longo de mais de três séculos, pelos autores e obras editados, assim como pela qualidade de impressão.

Esta edição sucede ao disco de estreia dos Cupertinos, dedicado a um repertório também menos conhecido de Manuel Cardoso, contemporâneo de Lobo e, como ele, formado no Colégio da Sé de Évora, que foi distinguido como melhor álbum de música antiga, nos Prémios Gramophone do ano passado, atribuídos pela revista britânica.

No comunicado dos Cupertinos, sobre a publicação do novo álbum, o maestro e tenor Luís Toscano, diretor musical do grupo, recorda que Duarte Lobo, embora seja “um dos incontestáveis mestres da Idade do Ouro da Polifonia Portuguesa” é ainda alvo de “falta de conhecimento”, o que “faz com que apenas um número reduzido dos seus trabalhos tenha sido gravado e apresentado”.

Depois da formação em Évora, Duarte Lobo fixou-se em Lisboa, primeiro como mestre de capela do Hospital Real de Todos-os-Santos e, depois, da Sé Catedral, que dirigiu durante quase cinco décadas.

Toscano recorda o impacto do terramoto de 1755, na perda de obras e na dificuldade da sua recuperação. Dá também como exemplo o desaparecimento das partes de tenor da coletânea “Opuscula”, que reúne os “Responsórios para as Matinas de Natal”.

O trabalho de investigação do professor José Abreu, da Universidade de Coimbra, permitiu no entanto a recuperação desta parte, num processo historicamente informado, desenvolvido em colaboração com os Cupertinos.

“A música em si é talvez surpreendentemente variada", escreve Luís Toscano, sobre o álbum. "Sempre intimamente vinculada e decorrente das palavras cantadas", oscila "entre as frases contemplativas, longas e quase estáticas de ‘Audivi vocem de caelo’, e momentos vívidos e animadores em alguns dos ‘Responsórios de Natal’”.

O motete e os Requiem a seis e oito vozes, interpretados por formações como The Tallis Scholars, Coro William Byrd e a Schola Cantorum de Oxford, estão entre as gravações mais recorrentes da obra do compositor português.

Com esta nova edição, Toscano espera que “uma nova consciência e interesse pelo legado de Duarte Lobo” possa emergir, assim como, “num sentido lato”, a difusão do “conhecimento sobre o património musical português dos séculos XVI e XVII”.

O grupo vocal Cupertinos, formação residente da Fundação Cupertino de Miranda, foi criado em 2009 com o propósito de “recuperar, estudar e divulgar o vastíssimo e ainda largamente por desvendar património musical português dos séculos XVI e XVII”.

Grande parte do seu repertório provém de fontes originais, envolvendo todos os seus elementos, em particular o diretor artístico, o tenor Luís Toscano, e o musicólogo José Abreu.

Toscano soma uma carreira internacional de anos, na área da música antiga, com trabalho em agrupamentos como Ars Nova Copenhagen, Brabant Ensemble, Theatre of Voices, Contrapunctus, Musica Ficta, e com regentes como Paul Hillier e Bo Holten.

José Abreu possui um percurso de professor e investigador nas universidades de Coimbra e de Aveiro, e na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto (Música Antiga e Composição). É um dos coordenadores do projeto “Mundos e Fundos - Mundos Metodológicos e Interpretativos dos Fundos Musicais”, do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra.

Ao longo do seu percurso, os Cupertinos apresentaram já cerca de 250 obras de compositores portugueses da Renascença, incluindo mais de cem estreias modernas, segundo a Fundação Cupertino de Miranda.

Os Cupertinos são também os dinamizadores do Festival Internacional de Polifonia Portuguesa, criado em 2011, no contexto da fundação.

"Masses", à semelhança do álbum anterior, foi gravado na Basílica do Bom Jesus, em Braga, durante o mês de julho de 2019. A pintura de Josefa de Óbidos está também na nova capa: depois de um “Agnus dei”, da artista seiscentista, surgem agora Maria e o seu filho.

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