“Foi com grande surpresa que soubemos a notícia, tanto mais que a Ana Luísa Amaral tinha estado connosco no dia 28 de julho quando fizemos a conferência de imprensa de anúncio da Feira do Livro do Porto. A própria Ana Luísa interveio e disse coisas maravilhosas e leu um poema como só ela o sabe ler”, disse Nuno Faria.

Em declarações à agência Lusa, o diretor artístico do Museu da Cidade e programador da Feira do Livro do Porto contou que, após receber a notícia da morte da poeta Ana Luísa Amaral, escritora escolhida pela organização da feira para a homenagem deste ano, falou com o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, com o qual combinou os “ajustes” que terão de ser feitos ao programa, mas recebeu a garantia de que o evento será “ainda mais celebratório”.

“A feira terá, inevitavelmente, de mudar de tom, mas queremos que seja uma feira alegre e celebratória. Será muito emotiva sem dúvida. Teremos de fazer ajustes porque a Ana Luísa teria um papel muito ativo”, descreveu.

A poeta Ana Luísa Amaral, recentemente galardoada com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, morreu na sexta-feira, aos 66 anos.

Nuno Faria recordou a também investigadora e docente da Universidade do Porto como “uma voz ativa na sociedade, ligada às questões feministas e de género, uma figura ativa no Porto e no país, que viveu nos últimos anos um reconhecimento superlativo”.

“Os últimos anos foram anos de grande reconhecimento de uma obra que já há muitos anos é considerada muito importante no panorama literário em Portugal. A chegada à Feira do Livro do Porto é muito natural. O que para nós é muito perturbante é que convidamos a Ana Luísa Amaral e a Ana Luísa colaborou muito connosco na construção desta feira. Todos contávamos estar juntos com os pares, com os leitores, com os amigos, para celebrar a sua obra”, acrescentou o diretor artístico.

Entre outros, o programador destacou que Ana Luísa Amaral foi galardoada recentemente, em Madrid (Espanha), com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, e que publicou, pela Assírio & Alvim, a sua poesia completa, um percurso de 30 anos.

“A homenagem que lhe prestamos na Feira do Livro é o reconhecimento de uma figura ímpar que se destaca como escritora, como poeta, como professora universitária, como feminista, como grande tradutora, como uma voz muito influente no que respeita a temas prementes da nossa contemporaneidade”, concluiu.

Nascida em Lisboa, em abril de 1956, a escritora e professora universitária Ana Luísa Amaral, tradutora de romancistas e poetas, vivia em Leça da Palmeira desde os 9 anos e recebeu múltiplas distinções ao longo da carreira, estando, entre as mais recentes, o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, o galardão espanhol Leteo, da Direção de Ação e Promoção Cultural de Leão, e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, atribuído pelo Património Nacional de Espanha e a Universidade de Salamanca, que reconhece o contributo significativo de uma obra poética para o património cultural deste universo.

Ana Luísa Amaral, “uma das mais relevantes poetisas da atualidade”, aborda, na sua obra, traduzida para diversas línguas, “a memória e vindicação do feminismo português”, destacou o júri do prémio Vergílio Ferreira 2021, presidido pelo espanhol Antonio Sáez Delgado, que considerou a escritora “uma das mais importantes vozes das letras portuguesas das últimas três décadas”.

Há dois anos, a associação das Livrarias de Madrid deu o prémio de Livro do Ano, na área de Poesia, à edição espanhola de "What’s in a name", da escritora portuguesa.

Doutorada em Literatura Norte-Americana pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde foi professora, Ana Luísa Amaral soma dezenas de títulos de poesia publicados, desde “Minha Senhora de Quê” (1990), além de já ter escrito teatro, ficção e vários livros para a infância.

Este ano, a sua obra poética foi reunida em “O Olhar Diagonal das Coisas”, incluindo os mais recentes “Sopros”.

A obra de Ana Luísa Amaral encontra-se traduzida e publicada em várias línguas e países, tendo obtido numerosas distinções, como o Prémio Literário Correntes d'Escritas, o Premio Letterario Poesia Giuseppe Acerbi e o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.

A sua obra é editada em Portugal pela Assírio & Alvim.

O corpo de Ana Luísa Amaral estará em câmara ardente a partir das 17:00 de hoje, na Capela do Corpo Santo, em Leça da Palmeira.

O funeral realiza-se no domingo, às 11:15, no Tanatório de Matosinhos.

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