“Uma pessoa, em princípio, não corre riscos por estar com amigos. Neste momento é que as condições são diferentes, mas naquela altura não. Neste momento, se eu for ter com uma pessoa, pode-se dizer que estou a correr risco, mas naquela altura era um comportamento normal as pessoas estarem juntas”, afirmou Germano Almeida, à agência Lusa.

O escritor, argumentista e realizador de cinema, autor de "O Velho que Lia Romances de Amor", morreu na quinta-feira no Hospital de Oviedo, no norte de Espanha, onde estava internado desde 29 de fevereiro, e sofria de uma pneumonia associada à COVID-19.

Os primeiros sintomas ocorreram dias antes, quando esteve no festival literário Correntes d'Escritas, realizado de 15 a 23 de fevereiro, na cidade portuguesa da Póvoa de Varzim, onde também marcou presença o escritor cabo-verdiano Germano Almeida.

Prémio Eduardo Lourenço 2016

Na altura, em que ainda não havia nenhum caso confirmado nem em Portugal, Germano Almeida foi o primeiro caso suspeito em Cabo Verde, esteve internado, mas o resultado do teste deu negativo.

O escritor cabo-verdiano descartou, por isso, qualquer risco por estar na altura com o escritor chileno, referindo que o coronavírus “ainda não estava na moda, depois é que entrou em força”.

“Estivemos praticamente juntos todos aqueles dias, porque na Correntes D’Escritas a gente está junto no hotel, nas sessões, nos autocarros, nos passeios”, recordou o escritor cabo-verdiano, de 74 anos, vencedor do Prémio Camões em 2018.

Germano Almeida recordou que se encontrava sempre com Luis Sepúlveda no festival literário na Povoa de Varzim, tendo criado “uma certa amizade”.

“Desta última vez, como já havia dois ou três vezes que ele não aparecia, no dia que chegámos, vimo-nos, abraçámo-nos”, contou Germano Almeida, dizendo que quando surgiu a notícia que o chileno estava doente, admitiu que pudesse estar também.

Nas declarações à Lusa, o escritor cabo-verdiano disse que já leu quase todas as obras de Luis Sepúlveda, dizendo que era “um grande contador de histórias”.

“Tem histórias muito interessantes, e era uma figura muito agradável de estar, era um homem de riso fácil e um escritor muito agradável de ler”, completou, dizendo que a morte foi inesperada, tendo em conta que passou algum tempo desde a notícia da doença, que já infetou mais dois milhões de pessoas em todo o mundo e matou mais de 137 mil pessoas.

Para Germano Almeida, não há muito a fazer perante a doença, a não ser “estar preparado” para a enfrentar.

“Porque ataca como na guerra de guerrilha, surge e ninguém sabe de onde. Viver em pânico é perfeitamente estúpido, a gente tem é de estar preparado para a hora que chegar”, mostrou.

Sobre a situação da doença em Cabo Verde, que regista 55 casos, sendo 51 deles na ilha da Boa Vista, de onde é natural – mas reside há vários anos em São Vicente – Germano Almeida mostrou “alguma preocupação” por 45 desses 51 casos terem surgido na quarta-feira, referentes a funcionários de um hotel, que estavam de quarentena.

Agora que surgiram todos esses casos, o escritor cabo-verdiano apelou às autoridades do país para ajudarem as pessoas mais afetadas pelas medidas restritivas do estado de emergência decretado no país, notando que, “se não morrerem de COVID-19, morrem de fome”.

Sobre a gestão do caso no hotel, Germano Almeida disse que é “inútil” neste momento apontar erros e falhas, mas sim tentar gerir a situação.

Luís Sepúlveda, que nasceu no Chile a 4 de outubro de 1949, estreou-se nas letras em 1969, com "Crónicas de Piedro Nadie" ("Crónicas de Pedro Ninguém"), dando início a uma bibliografia de mais de 20 títulos, que inclui obras como "O Velho que Lia Romances de Amor" e "História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar".

Sepúlveda foi apoiante do Governo de Unidade Popular, do Presidente Salvador Allende, no Chile, chegando a fazer parte da sua guarda pessoal. Depois do golpe de estado militar de 11 de setembro de 1973, liderado pelo general Augusto Pinochet, a instituição da ditadura o escritor à prisão, primeiro, e depois ao exílio, na sequência de uma intervenção da Amnistia Internacional.

O escritor tem toda a obra publicada em Portugal - alguns títulos estão integrados no Plano Nacional de Leitura -, e era presença regular em eventos literários no país.

Luís Sepúlveda era casado com a poetisa Carmen Yáñez, que também esteve hospitalizada e em isolamento.

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