“Antes de mais e depois de tudo” é a primeira antologia de poemas escolhidos de Regina Guimarães, dramaturga, letrista e professora universitária que recusou ficar responsável pela seleção, pois “não saberia encontrar” o fio condutor da obra poética com publicação iniciada em 1974 e encontrou em Rui Manuel Amaral, também escritor, o olhar “com o afeto da inteligência” necessário para a tarefa.

“Isso, para mim, faz toda a diferença”, destacou a autora prestes a completar 63 anos, em declarações à Lusa, notando que da mesma forma que não dança “com qualquer pessoa”, não seria capaz de envolver o seu trabalho numa publicação que não fosse “artesanal”, sem uma “personalização das coisas”.

“Não me sinto próxima dos gigantes da edição. Sinto-me próxima dos anões, das pequenas editoras, que são os gigantes desta aventura da escrita”, justificou.

Daí a importância da relação com Rui Manuel Amaral: “Eu escrevi os textos. Ele fabricou o livro”.

“Disse logo que não queria ser eu a escolher. O problema seria como reunir, o que faria sentido e com o quê. O Rui conseguiu arranjar um critério exterior [ao autor], relacionando-os uns com os outros, assumindo um fio condutor que eu não saberia encontrar”, referiu.

Regina Guimarães fez ainda outro pedido: que o livro não fosse “muito extenso”, para evitar “a aparência arrogante de um grande calhamaço”.

O resultado não chega a 100 páginas, mesmo tirando o posfácio em que Rui Manuel Amaral alerta que, “por cada poema incluído no livro, há centenas, milhares de outros, espalhados por um número infindável de páginas impressas ou ainda inéditos”.

“Penso com frequência em alguém tomado pelas palavras, feito de sílabas até à última das células. Não sei explicar melhor. No seu caso, a poesia não é uma escolha, mas um fenómeno biológico. […] Com outros doam o corpo à ciência, Regina Guimarães entregou o corpo à poesia”, descreve, na publicação.

Desde cedo que Regina Guimarães sentiu a ideia de publicar como “algo muito difícil”.

“Não escrevo livros. Escrevo poemas. A ideia de os reunir em livro sempre me pareceu quase artificial. Durante muitos anos publiquei muito pouco. Há uns anos fui publicando sob a forma de cadernos, precisamente pela ideia de considerar que não há uma ordem cronológica pela qual as coisas devam ser lidas”, afirmou.

O primeiro texto que fez, com consciência de tal o estar a fazer, “ainda não sabia escrever”.

Ditou-o, ao pai, numa casa onde se escrevia tanto que escrever era “uma coisa normal, que as pessoas faziam”.

Editado pela Exclamação, “Antes de mais e depois de tudo”, é apresentado no domingo, às 16:00, no Auditório da Biblioteca Almeida Garrett.

A iniciativa conta com a presença de Regina Guimarães e Ana Deus e insere-se no âmbito do programa oficial da Feira do Livro do Porto, que começa na sexta-feira nos jardins do Palácio de Cristal.

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