Eram exatamente nove horas da noite quando chegámos ao Teatro Olga Cadaval em Sintra, a 16 de janeiro de 2015. Na sala de espera encontravam-se cerca de vinte pessoas, a chuva batia incessantemente nos vidros do edifício e nada fazia prever a quantidade de gente que, à última hora, saiu das suas acolhedoras casas para encher o auditório Jorge Sampaio deste famoso teatro sintrense.

Num ambiente bastante formal mas ao mesmo tempo familiar, Fernando Fernandes, para nós, apenas FF, apresentou o seu novo projeto, Saffra. Este une a música tradicional portuguesa à modernidade do fado, criando um estilo completamente novo e refrescante.

O cantor é quem dá a voz a este projeto e é também o compositor de duas dessas onze canções que integram o álbum, que inclui grandes nomes da música portuguesa como Dulce Pontes, Diogo Clemente, Manuel Paulo, Flávio Gil, entre muitos outros que deram o seu contributo neste grandioso trabalho que dá uma nova perspetiva do nosso fado.

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Assim que as portas do recinto se fecharam,  um cenário intimista foi criado para a receção de FF e do conjunto de músicos que o acompanham. Foi então que pudemos comprovar a imponente voz do cantor, que rapidamente encheu a sala de harmonia com a primeira música, inspirada diretamente no melhor que Portugal tem para oferecer, o fado. Contudo, o ambiente mudou assim que os acordes alegres da segunda música foram ouvidos: “Safra Deste Ano”. Esta foi reconhecida por todo a plateia, já que se tornou no primeiro single deste álbum, um orgulho para o músico tendo em conta ser a sua "primeira colheita musical".

A noite foi seguida de mais música tradicional portuguesa, até sermos surpreendidos, primeiro com ritmos característicos do tango, que faziam FF dar pequenos passinhos de dança, e depois com uma música de samba, adaptada ao estilo de Saffra. Para este tema, não original do seu projeto, chamou o seu primeiro convidado, Tiago Pirralho, que não faz jus ao seu nome, já que, pegando nas palavras de Fernando,  é “um senhor no que toca a tocar acordeão”. Assim, os mesmos, não causaram desilusão na adaptação da “dança da solidão”.

Porém, um dos momentos altos da noite chegou depois de o cantor admitir o seu nervosismo perante esta apresentação: “este é daqueles concertos em que estou tão nervoso, tão nervoso… mas ao mesmo tempo, tão feliz! Parece uma bola de ping pong entre a tristeza e a felicidade. Ainda por cima neste concerto em que nos metemos em tanta coisa! É assim que eu apresento a minha próxima convidada. Sinto um carinho enorme por esta pessoa (…) a última grande intérprete viva, Simone de Oliveira”. Simone foi aplaudida por uma plateia de pé e sorridente. A mesma que, passado uns minutos pôde aplaudir da mesma forma a interpretação brilhante e sentida feita por Fernando, do clássico “A Desfolhada”.

O concerto continuou e o cantor não se poupou nas palavras e nas histórias que iam explicando a razão para a produção de cada uma das suas canções, entre as justificações mais divertidas e ao mesmo tempo mais íntimas está a interpretação do fado “Sina”: “Não me quero estender em palavras, mas como é o primeiro concerto apetece-me justificar tudo (…) A música que se segue é dedicada à minha avó materna que proibia toda a família de a cantar. Assim, acho que é uma boa maneira de a homenagear, lutando contra a superstição”.

Para além disto, o cantor também explicou onde é que Dulce Pontes entra na criação do seu álbum. A cantora, que fazia parte das suas influências musicais desde sempre, foi contactada via email. E, para além de ter divulgado um vídeo sobre o projeto, também foi responsável pela letra da música “Urze Transmontano”.

Por fim, depois de sermos absorvidos por todo o seu talento vocal e instrumental (já que o pudemos ouvir também ao piano), só nos falta aplaudir de pé, uma vez mais, o trabalho fantástico realizado pelo cantor, que impressiona pela sua voz poderosa e pela sua genuinidade e simpatia, mas também pela sua grande equipa que conseguiram trazer de volta o fado através de uma vertente mais moderna. Quem sabe se, através desta, o género volte a ter uma papel de destaque na cultura musical dos jovens e adultos portugueses. Já que, é importante não esquecer que o fado fez, faz e fará parte da nossa história.

Fotografias: Ana Castro

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