Um dia depois de se ter tornado o primeiro português a receber uma bolsa de mérito da Fundação Edmond Hustinx, o artista de 24 anos explicou à Lusa que o prémio é atribuído a estudantes dos diferentes departamentos da Universidade Zuyd de Maastricht, nos Países Baixos, onde terminou o mestrado com nota máxima e menção honrosa.

“São destacados três alunos de cada faculdade, este ano escolheram guitarra para representar o Conservatório. Fizemos uma competição interna e apuraram-se três finalistas. É um prémio em dinheiro, com história, que existe desde 1962 e muita gente que o ganhou tornou-se professor no Conservatório e bons artistas. Sou o primeiro português e primeiro guitarrista a ganhar”, explicou.

A este prémio, Sandro Rodrigues junta as distinções de duas rádios internacionais, uma alemã e outra holandesa, que escolheram “Fantasia”, lançado em março, como álbum da semana, no qual o artista de São João da Madeira criou e interpretou as transcrições para guitarra clássica das fantasias para viola da gamba, do compositor alemão Georg Philipp Telemann, do século XVIII, cujas partituras foram descobertas em 2012.

“Era uma boa oportunidade porque o meu professor de mestrado, [o mestre Carlo Marchione], fez a transcrição para violino e ninguém fez uma segunda versão. É uma coisa que fazes, fica e ninguém vai fazer. É como um trabalho intocável e de referência porque dificilmente alguém se dispõe a transcrever quase duas horas de música de uma rajada, e aproveitei essa exclusividade que o trabalho tinha”, explanou.

Essa ideia surgiu ainda durante a licenciatura, concluída no Conservatório Superior de Música de Aragón, Espanha, numa altura em que estava a fazer investigação de compositores de corda dedilhada do barroco português, tendo encontrado apenas um, daí ter optado pela transcrição.

“Passei [as partituras] para guitarra na versão original para que pudesse ler essa música e fui adicionando coisas, aspetos harmónicos, imitações de vozes e criei a versão para guitarra daquelas fantasias. Ideias minhas com um certo rigor histórico. Não ia colocar uma harmonia ‘jazz’ numa obra barroca. Tive de investigar como Telemann fazia isto, como outros transcritores de outra altura poderiam fazer e também de como eu gosto. Encontrei um resultado entre essas linhas e acabei por fazer as transcrições como gostava”, prosseguiu.

No primeiro ano de mestrado, já em Maastricht, sob orientação do 'perito' Carlo Marchione, o músico contactou a editora holandesa Cobra Records, que lhe ofereceu a oportunidade de gravar o disco. Os custos, porém, obrigaram o músico a procurar uma solução: primeiro tentou o ‘crowdfunding’, sem sucesso, tendo optado por “lavar pratos” num restaurante, enquanto concluía os estudos.

“Apresentaram-me o contrato e eu pedi para pensar porque era um investimento importante, mas vendo a oportunidade eu tinha de fazer os possíveis porque não iria aparecer outra editora grande a oferecer-me esta oportunidade. Até esse momento eu não tive nada, há 1001 guitarristas a ganharem concursos, mas não conseguem entrar também. Era arriscado pelo dinheiro. Pus-me a lavar pratos para pagar o disco”, relatou à Lusa.

O percurso que começou na Academia de Música de São João da Madeira e na Escola Profissional de Música de Espinho vai sofrer uma “pausa”, de forma a assimilar “toda a informação” de 15 anos de estudo de música, apenas com a certeza de ir à procura de algo diferente, seja a solo ou em ‘ensembles’.

“É mais animado tocar com outras pessoas, não requer tanto estudo e há mais divertimento em palco, há muita sinergia entre músicos. O projeto do disco foi de música barroca, mas não é a única coisa a que me quero cingir. Vou continuar a estudar por minha conta, isto nunca acaba. Montar repertórios, mostrar o meu estudo a outros e continuar a transcrever. Todos os projetos que me aparecerem eu vou aceitar. Este vai ser o primeiro ano em que não estou a estudar e sou artista ‘freelancer’”, sublinhou.

Apesar da boa crítica a “Fantasia”, o músico não se ilude e sabe que “é quase impossível viver de concertos”, numa indústria fragilizada pela pandemia de covid-19, portanto o futuro continua a passar por Maastricht, no mesmo restaurante, e a dar aulas privadas de guitarra.

“As minhas perspetivas são boas porque tenho algo para mostrar. Quero acreditar que consigo viver da música em Portugal. O meu plano era voltar já este ano. Vai ser complicado para os novos artistas como eu, porque fazem-se menos festivais e concertos. Todos querem tocar e as oportunidades vão para apostas seguras e quem tem carreira”, concluiu.

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