Desde Iggy Pop a mostrar que velhos são os trapos aos Massive Attack a provar que as bandas também são importantes para passar alertas sociais e políticos, torna-se impossível destacar um ponto alto da passada sexta-feira no Parque das Nações, em Lisboa. Sem deixar de referir a surpresa de Kwabs, bem como a representação bem-sucedida do contingente lusitano, com nomes como Pista, Basset Hounds ou Capitão Fausto.

A jogar em casa, os Basset Hounds estrearam-se no Palco Antena 3 para apresentar o seu álbum homónimo. Numa altura que ainda o povo rumava em direcção ao Parque das Nações, foi com uma moldura humana bem composta na escadaria e junto ao palco que se aplaudiu uma das novas bandas do psicadelismo português. O quarteto nunca comprometeu, apresentando alguns temas se calhar mais calmos, como “Bossa” e “Sound”, contrastando com outros ritmos mais acelerados como “Over the Eyes”. Uma viagem entre a melancolia e a euforia.

Vindos do Barreiro, possivelmente via Ponte Vasco da Gama, chegaram os Pista com o seu Bamboleio e consequentemente Pedalcore. Muitas t-shirts tropicais e muitos ritmos quentes proporcionaram uma bonita festa que ainda contou com a energia inesgotável de Alex D’Alva Teixeira, que apareceu para dar um auxílio na voz, em “A Tal Tropical”, “Sal Mão” ou o final apoteótico com “Queraute”. Pelo meio ainda houve uma provocação a Iggy Pop, com uma breve referência ao tema dos The Stooges, “I Wanna Be Your Dog”.  “Toma Iggy, tocámos primeiro que tu”.

À hora do jantar, é Kwabs quem chama à atenção. O artista britânico, de ascendência ganesa, foi recebido com grande afecto, sendo de esperar o seu regresso a Portugal para breve. Com o álbum Love + War na bagagem, Kwabs tratou de em menos de uma hora tocar alguns temas seus menos conhecidos, mas reveladores de uma variedade musical impressionante. Capaz de pegar em R&B, soul, eletrónica e aplicá-la à pop, Kwabs deixou o público em ponto de rebuçado e naturalmente satisfeito quando tocou por fim “Walk”. Embora tenha feito uma versão interessante do “Love Yourself”, de Justin Bieber, é de esperar numa próxima visita que tenha mais materiais novos.

Iggy Pop. Também conhecido por James Newell Osterberg,  de 69 anos. Mas a idade mental do norte-americanos será de uns 20 anos. Sem t-shirt, a sua imagem de marca é a entrar com todo o gás, o que faz partir o MEO Arena em pedaços. “No Fun”, ainda da era The Stooges, não foi capaz de prever o quão assombroso “I Wanna Be Your Dog” se tornou. Com Iggy a andar de um lado para o outro, mesmo a coxear, a energia parece não se esgotar. Nem no artista, nem no público, sedento de rock. Como se não bastasse, chega “The Passenger”, que faz todo o pavilhão saltar e cantar em uníssono.

A entrada de rompante não fez esmorecer o resto do concerto. Com uma carreira inteira cheia de êxitos, aquele que é uma das últimas lendas vivas do rock n' roll não fez por menos e polvilhou o Palco Super Bock com “Sixteen”, “1969”, ou ainda “Lust for Life”, que acabou com tantas vozes quanto aquelas que gritaram o golo do Éder na semana passada. Com uma energia inesgotável (só o vimos sentado a recuperar o folgo por uma vez), Iggy Pop anda de um lado para outro no palco e desce constantemente para o fosso para distribuir high-fives por aqueles que ficaram junto às grades.

A ideia que fica no final é a de que o concerto foi curto demais para um artista tão grande. No encore ainda houve espaço para uma breve menção ao novo álbum, com “Sunday”, mas a despedida faz-se da melhor forma com “Search and Destroy”. Se foi a última vez que o vimos por Portugal, ninguém sabe. Mas esparemos sinceramente que não.

Pouco depois, no mesmo Palco Super Bock, se pouco ou nada tinha restado de pé com Iggy Pop, então Massive Attack com Young Fathers limparam o resto. Com o seu trip-hop denso, misterioso, mas ao mesmo tempo sedutor e cativante, fizeram como pano de fundo um alerta à consciência política de cada um dos que estava no público. As referências ao Brexit, aos atentados de Nice (onde iriam tocar na próxima terça-feira), à crise política na Turquia, nada ficou por dizer nesta atuação que foi um apelo para o que está a acontecer no mundo.

Com "United Snakes" e Risingsons" a abrirem a hostilidades do novo EP da banda, “Ritual Spirit”, verificamos que o palco se tornou pequeno para tantos artistas como o cantor britânico Azekel, que emprestou a voz neste novo trabalho, ou ainda os vencedores do Mercury Prize de 2014, Young Fathers. A descarga elétrica foi grande, sendo que as réplicas surgiram ao longo de outros temas dos Young Fathers, como “Old Rock n Roll”, “Shame” ou ainda “He Needs Me”.

Para terminar, e com Deborah Miller em palco, “Safe from Harm” e “Unfinished Sympathy” (já no encore), apelaram também à causa dos refugiados, às vítimas de guerra, a todos os problemas que acontecem no mundo, diga-se. Uma despedida emotiva e sentida.

A encerrar a edição desde ano, o hip-hop estará em destaque neste sábado, com o nome de Kendrick Lamar a encabeçar uma lista que inclui De La Soul, Orelha Negra ou Mike El Nite.

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