Maria Gabriela Lansoll morreu no dia 3 de março de 2008, mas a cerimónia de evocação desta data será feita no próximo dia 10, no Espaço Cultural Cinema Europa, em Campo de Ourique, por ser o bairro onde nasceu e viveu mais de 30 anos, antes do exílio na Bélgica (entre 1965 e 1985), disse à Lusa o ensaísta João Barrento, responsável pelo espólio da escritora.

A “escrevente”, palavra que Maria Gabriela Llansol preferia para se classificar, em vez de “autora”, não pensava a morte como um fim e sobre isso deixou escritos, razão por que João Barrento também prefere referir-se aos dez anos da sua “passagem”.

“Não imaginava a morte como o fim da vida e de si mesma, mas a continuação, sob a forma desconhecida de metamorfoses, de outros ocultos fenómenos vistos sob a perspectiva da viagem infinita”, escreveu Maria Gabriela Llansol num dos seus primeiros cadernos de escrita.

Assim, tanto esta “viagem”, como a sua presença viva, serão evocadas, “pela palavra e pela imagem”, a partir de inéditos e documentos do espólio, que serão lidos a apresentados e que testemunham a vida e já a escrita de Llansol, no bairro de Campo de Ourique, onde cresceu e onde, recentemente, foi inaugurada uma nova “casa” com o seu espólio, disse João Barrento.

Nesse espaço, são regularmente desenvolvidas atividades públicas, sempre em ligação com a sua obra, que é infinita, porque contém “infinitas possibilidades combinatórias”, e que por si só justificam que a celebração da obra e vida de Llansol não se esgote numa cerimónia a assinalar uma efeméride.

Esta nova casa, que passou a acolher o Espaço Llansol (associação que se dedica ao estudo da obra literária de Maria Gabriela Llansol), chama-se “A Casa de Julho e Agosto”, fica na rua Saraiva de Carvalho, e abriu oficialmente no dia 24 de novembro, data de aniversário da escritora, que nasceu em 1931.

O nome foi herdado do título de um dos livros de Llansol, explicou, e dos meses em que decorreu a mudança do espólio, de Sintra para Lisboa.

“A casa é lugar de trabalho e espaço visitável, e acolhe todo o espólio literário, documental e material deixado por Maria Gabriela Llansol. Desenvolvemos nela regularmente atividades públicas, sempre em ligação com esta obra e sempre aos sábados à tarde”, disse João Barrento, também fundador do Espaço Llansol.

No entanto, o especialista na obra da escritora sublinha que este espaço “não é uma casa-museu”, apesar de ser visitável, mas um sítio que se pretende como uma casa onde se poderia viver, “acolhendo tudo o que ficou na última residência da escritora”.

“Reconstitui exatamente o ambiente de vida e de trabalho de Llansol em divisões como o seu escritório, a cozinha ou espaços onde expomos objetos e obras de arte relevantes na sua escrita e na sua vida”.

Paralelamente, todo o enorme espólio literário, documentos, biblioteca, obras de arte, e outras peças deixados pela autora foram organizados e arquivados na casa, de forma funcional, de modo a poderem ser vistos e consultados, seguindo um princípio “claramente definido num dos cadernos manuscritos” de Llansol.

Esse princípio – considera João Barrento – “ajusta-se perfeitamente” a este novo espaço, se for entendido como um “lugar” no sentido que Llansol dava ao termo: espaço animado por uma vibração e um pensamento próprios.

Escreveu ela: “A casa grande, enorme, que conteria os objetos, cenas da minha vida, os encontrados e as transformações, sendo uma casa real, seria estática – um Museu. Sendo um pensamento, encontraremos um lugar para viver. A única condição é o pensamento poder audaciar-se, exprimir-se em obra que fique em toda a parte”.

“É o que temos tentado fazer nesta ‘casa grande’, casa de pensamento e de criação de atmosferas onde está literalmente tudo o que constituía o recheio da casa de Sintra: não existe mais espólio do que aquele que nos foi legado e está agora ordenado, classificado, digitalizado e disponível no Espaço Llansol”.

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