A mostra estabelece um percurso através da obra de Rafael Bordalo Pinheiro, "num ensaio que revisita os seus temas de eleição e oferece uma leitura plural e informada do seu talento, criatividade e notável capacidade de trabalho", indica o museu situado no Campo Grande, em Lisboa.

"Bordalo em Trânsito" propõe "uma releitura dos temas bordalianos à luz do presente, com a preciosa nota de que o espírito crítico e o humor podem ser os aliados perfeitos para a construção de uma cidadania ativa, participada, construtiva", lê-se na página de apresentação da exposição.

Organizada em três núcleos, aborda o autorretrato do artista, em "Bordalo ao espelho", a sua expressão crítica, em "Zé Povinho, Identidade e Política", e celebra o seu gosto pela gastronomia, em "Bordalo à Mesa".

"'Bordalo ao Espelho' imagina uma biografia muito divertida: através do autorretrato, em que foi mestre, o artista apresenta-se, transfigura-se, desafia o sentido de observação dos mais incautos, convida ao riso e convoca o espanto: quantos Bordalos cabem num Bordalo só?", desafia o museu para o percurso através da figura do artista.

Em "Zé Povinho, Identidade e Política", núcleo centrado na principal criação de Bordalo, "o glorioso Zé Povinho mostra a sua garra e, naturalmente, a falta dela também".

"Esta representação simbólica do povo português apresenta um caráter e atitudes perante o poder que vão da indiferença e da passividade à vontade em reagir e assumir um papel de cidadão ativo e responsável", escrevem os serviços do museu, na apresentação deste núcleo expositivo.

"Zé Povinho põe à prova a paciência da Maria enquanto se encolhe sob a albarda com que o carregam ou devolve aos 'carrascos' um valente manguito, libertando-se da carga – assumindo o gesto a filosofia possível", prossegue o texto de apresentação.

"A genialidade desta criação de Bordalo faz-se pela prova do tempo e pela estimulante apropriação que outros artistas continuam a fazer da personagem, quase 150 anos depois", comprovando a sua atualidade.

Por fim, no núcleo "Bordalo à Mesa", é celebrado "um tema que era querido ao corpo e ao espírito" de Rafael Bordalo Pinheiro, "a boa mesa".

"Os alimentos e a gastronomia enriquecem registos gráficos e peças de cerâmica de opulência real", sem esquecerem a permanente crítica social, patente na obra do artista, descreve o museu.

"Em ambientes realistas ou humorísticos, desde o mais simples legume à mais cerimoniosa refeição, a comida serve, também, como metáfora para a crítica política e social – sem papas na língua".

Este núcleo da exposição dá igualmente a conhecer "referências a bons cozinheiros e a bons lugares onde saciar a fome, tão opiparamente quanto se deseje, e mostrados rótulos e publicidades que o artista realizou enquanto 'designer', ou peças utilitárias e decorativas", de que são exemplo os dois serviços de mesa produzidos na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

A exposição deverá ficar patente durante aproximadamente um ano e poderá ser visitada de terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00.

O Museu Bordalo Pinheiro tem origem na coleção reunida por Cruz Magalhães, poeta, panfletário, crítico, humorista, admirador da obra de Rafael. Data de 1913 a encomenda do projeto para a moradia do Campo Grande, ao arquiteto Álvaro Augusto Machado, onde se encontra a coleção.

O Museu abriu ao público em 1916, foi doado ao Município de Lisboa, em 1924, integrado no Serviço de Museus na década de 1940, e passou a ser gerido em conjunto com o Museu da Cidade em 1962.

A construção de Galeria de Exposições Temporárias, na zona posterior ao museu, aconteceu em 1992, aumentando a capacidade expositiva, mas obras de construção em terrenos contíguos, no final da década, viriam a impor obras de consolidação da estrutura e o encerramento do museu até 2005.

Na reabertura, foi definido um novo programa museológico, baseado na investigação entretanto realizada.

Em 2016, quando celebrou 100 anos, o museu passou para a tutela da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), da Câmara de Lisboa, aumentou a programação e abriu a Sala da Paródia, para novas exposições temporárias.

O Museu Bordalo Pinheiro uma biblioteca e uma coleção em torno da obra artística de Rafael Bordalo Pinheiro e de seu filho, Manuel Gustavo, mas áreas de desenho, gravura, pintura, cerâmica, azulejaria, equipamentos e utensílios, fotografia e documentação.

Desde a primavera passada, no Campo Grande, mesmo em frente à entrada do Museu, uma grande escultura de Rafael Bordalo Pinheiro, com o seu gato Pires, numa representação bem humorada e de braços levantados, dá as boas-vindas a quem visitar o Museu, "e os bons-dias aos condutores que passarem pelo Campo Grande".

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