A série da Netflix com sabor latino tem no realizador brasileiro José Padilha a sua principal força criativa, e é ele próprio quem assina os dois primeiros episódios da primeira temporada, que tem ao todo dez capítulos.

José Padilha mudou-se do Rio de Janeiro para San Fernando Valley, em Los Angeles. Em 2014 assinou o remake do filme "RoboCop", na origem realizado por Paul Verhoven. Padilha iniciou a sua vida noutros mundos, primeiro com um curso de Física (o pai trabalhou na NASA em Houston) e depois com um trabalho na banca de investimento. A oportunidade de produzir um filme com Marcos Prado, um fotógrafo brasileiro vencedor do World Press Photo, levou-o a conhecer Nigel Noble, responsável da cadeira de documentário na prestigiada Tisch School of the Arts na Universidade de Nova Iorque.

Em 2000 José Padilha produz o filme de Nigel Noble "Os Carvoeiros" a partir de uma ideia de Marcos Prado. No contrato de produção estava consignado que Nigel Noble ensinaria José Padilha a dirigir um filme. Em 2007 conseguiu o sucesso global com o filme "Tropa de Elite" e, em 2008,  assinou o poderoso e controverso documentário "Autocarro 174".

"Narcos" partilha a veia cinematográfica de José Padilha. Foi ele  quem criou o modelo de realização de toda a série na forma como conduz os dois primeiros episódios que mesclam ficção e realidade numa matriz igualmente assente na capacidade genuína de representação e na escrita sob o pano de fundo de cenários reais.

A série foca a ascensão e a queda de Pablo Escobar, o maior traficante do mundo de cocaína nos anos 1980. Ele integrou a lista dos bilionários da Forbes entre 1987 e até à sua morte em 1993, altura em que controlava 80% do tráfico mundial de cocaína.

"Narcos" não foca apenas a figura mítica do narcotráfico, recua no tempo e observa outros traficantes e a origem da pirâmide do tráfico de cocaína e as ramificações sociais, políticas e militares.

Aliás, a série arranca em 1973 no Chile sobre o regime de Pinochet com uma figura manhosa apelidada de “barata” foge para a Colômbia e encontra num jovem Pablo Escobar, um traficante de tabaco, álcool e marijuana que tinha o lema “prata ou chumbo” para as autoridades que lhe faziam face, o parceiro perfeito para o tráfico do pó branco.

"Narcos" partilha afinidades criativas com "Tudo Bons Rapazes" de Scorsese na forma como expõe a narrativa em voice over do agente da DEA Steve Murphy, cruzando a ficção com as imagens de arquivo que conferem ainda mais significado à história.

A extensa pesquisa de José Padilha, que entrevistou não só os agentes da DEA interpretados por Boyd Holbrook (Steve Murphy ) e Pedro Pascal (Javier Peña) como os “capitães” de Escobar, políticos, polícias, advogados e um ex-Presidente da Colômbia que foi alvo de uma tentativa de assassinato.

A série relembra precisamente aos espectadores o peso humano que o tráfico de uma droga de recreação social tem sobre as pessoas. Na eclosão do tráfico nos anos 1980 em Miami, as elites da cidade eram o principal mercado.

O que levou os Estados Unidos a criar a fracassada guerra contra as drogas, que dura há 30 anos e foi iniciada pelo Presidente Ronald Reagan, foi a saída de milhões de dólares da América para a Colômbia, não foi propriamente a alta taxa de criminalidade e o flagelo social em Miami.

Em termos narrativos, o argumento demonstra o cinismo dos dois lados da barricada. Inicialmente é uma história de “polícias” e “ladrões” mas rapidamente nos apercebemos de que é uma epopeia criminal numa zona ultra cinzenta. A vida é mais complicada do que se pensa no mundo dos traficantes, faz-se o que se pode e espera-se o melhor.

As filmagens decorreram na Colômbia e Wagner Moura foi o escolhido para interpretar Pablo Escobar. O ator brasileiro de 39 anos tinha sido convidado há dois anos por José Padilha para interpretar o narcotraficante, o desafio seria aprender a falar espanhol e engordar 20 quilos.

Ainda sem ter sido contratado pela Netflix, Wagner Moura viajou até Medellín em busca de inspiração. Lá, visitou o antigo rancho de Escobar, que é atualmente um parque temático, e o bairro da cidade que foi financiado por Escobar, que é ainda considerado pelos habitantes uma espécie de Robin Hood.

O resultado final do desempenho de Wagner Moura é impressionante, além da transformação física, tudo resulta de um argumento bem escrito que proporcionou ao brasileiro o papel da sua carreira graças a um personagem extremamente ambíguo.

As contradições eram muitas na figura sanguinária de Escobar que através do seu exército de sicarios (assassinos a soldo colombianos) foi responsável pela morte de milhares pessoas. Wagner Moura construiu e representou um megalomaníaco que passava despercebido na rua e que desejava ser Presidente da Colômbia, mas afirmava ser um homem pobre com dinheiro e era um homem de família apesar de ter uma amante.

Recordamos que Wagner Moura interpretava o incorruptível capitão Nascimento nos filmes de José Padilha "Tropa de Elite" e na sequela "Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro", o maior filme, em termos de receitas, do cinema brasileiro. Digamos que o “capitão” se mudou para o outro lado da lei.

José Padilha, Wagner Moura e a Nteflix criaram a candidata a melhor série do ano. E claro que, sem surpresas, "Narcos" já foi renovada para uma segunda temporada.

Este histórico objeto de televisão foi criado por Chris Brancato, Paul Eckstein, Carlo Bernard e Doug Miro com produção de José Padilha para a Gaumont International Television e com distribuição internacional da Netflix.

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