Tal como em Portugal, em França  a luta  também não é nova. Em 2010, Jacques Muller fez uma proposta de lei que foi concluída com êxito, conta o Télérama. A publicação explica ainda que o operador público tem diversas restrições em termos de conteúdos, mas que não há restrições à publicidade.

“Consideremos a publicidade como alimentos hiper-calóricos: acredita realmente que as mensagens de prevenção são eficazes para as crianças que não sabem ler? (…) Quanto aos anúncios de televisão sobre brinquedos, muitas vezes mostram um mundo que não têm nada relacionado com o caráter plástico”, explica Marc Belpois da revista cultural francesa Télérama.

"Como a maior parte da programação para crianças é emitida na RTP2, não tem havido invasão de publicidade nesses espaços", Sara Pereira

Em Portugal a questão também tem sido discutida, explica Sara Pereira, professora e investigadora da Universidade do Minho, ao SAPO Mag. "Essa é uma velha questão que em vários momentos tem sido levantada e discutida, inclusive para os programadores privados. Idealmente esse seria o melhor cenário: não emitir publicidade nos espaços de programação para a infância. Em Portugal, nos últimos anos, o caso não tem sido, em todo o caso, dramático no que diz respeito ao operador público. Como a maior parte da programação para crianças é emitida na RTP2, não tem havido invasão de publicidade nesses espaços", sublinha a professora de Ciências da Comunicação.

Para a investigadora da área das ciências sociais é fundamental “ haver regulação específica”, que seja “objetiva e que não se preste a leituras várias por parte dos operadores”. “Uma regulação que defina regras ao nível do tempo e do tipo de produtos que são anunciados e até mesmo da sua repetição”, exemplifica.

De acordo com Sara Pereira, acabar com a publicidade entre os programas infantis é sinónimo de acabar com a programação para crianças: “Se retirar a publicidade significar acabar com a programação para as crianças na TV, então será preferível a meu ver que a publicidade esteja lá, com a tal regulação específica, assegurando a programação destinadas aos mais novos. Este cenário parece-me melhor do que desaparecer por completo a programação para as crianças. Isto não retira a importância do operador público apostar em espaços TV de qualidade sem a presença de publicidade”.

O objetivo da publicidade é criar impacto. Para a diretora do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, as crianças devem “aprender desde cedo o que é a publicidade”, visto que nos cruzamos com anúncios em vários meios. “Não pensemos que ao retirar publicidade da televisão estamos a proteger as crianças desse mundo comercial. Ele está em toda a parte, até na roupa que usam, nos cereais que comem”, sublinha.

“Importante será a preparação das crianças para compreenderem a publicidade, os seus objetivos e estratégias, em vez de querermos fechá-las a um mundo que está em todo o lado. Importante será que vão desenvolvendo espírito crítico em relação ao mercado, às práticas de consumo, ao mundo de mercado. As crianças devem ser preparadas para o mundo da publicidade e para a sociedade de consumo em geral. Para que cresçam com atitudes e comportamentos mais críticos e mais informados”, advoga Sara Pereira, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade.

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