Quis o acaso que o último trabalho de Michael Moore (“Bowling for Columbine”, “Fahrenheit 9/11”) estreasse na ressaca de um acontecimento muito semelhante àquele que retrata em “Fahrenheit 11/9”: a vitória eleitoral de um líder de extrema-direita – mais concretamente a de Jair Bolsonaro, no Brasil. O filme já está em cartaz no nosso país.

Ocorrida na data que dá nome ao filme, dois anos antes, a eleição de Donald Trump tem muitas semelhanças com o sucedido na América do Sul e toda a cartilha desta ascensão está descrita nesta obra – que reúne a sempre inventiva manipulação de imagens, o humor corrosivo e o “show off” do realizador.

Historicamente Trump, Bolsonaro e até Adolf Hitler, que também marca presença, tem muitos padrões em comum. Um deles é o facto de terem todos começado como uma piada ridícula, que rendia gargalhadas e sarcasmo dos “inteligentes”.

Aqui, mais concretamente, de Hillary Clinton a George Clooney, de luminares dos “talk shows” americanos a Beyoncé, a expressão a propósito da possibilidade de Trump chegar à presidência dos EUA era proferida entre sorrisos irónicos: “It’s not gonna happen!” [Nao vai acontecer].

E, se era para rir, Moore oferece a primeira piada: tudo aconteceu por culpa de Gwen Stefani. Sim, a cantora “pop” que fez sucesso nos “No Doubt” e depois numa carreira a solo, que por acaso se transformou numa bem-sucedida cara da televisão como jurada do concurso "The Voice".

E onde está a sua culpa? Bom, essencialmente Trump não se conformava em ganhar menos do que ela e pediu aumento à estação NBC – que o ignorou solenemente. E então ele decidiu ser presidente dos EUA. A farsa virou tragédia.

Moore não diz, mas o processo faz lembrar a teoria de que a culpa pela ascensão de Hitler podia ser atribuída à Academia de Belas-Artes da Áustria, que recusou um homem que apenas queria ser pintor.

A seguir, o cineasta avança para um aspeto crucial: a enorme responsabilidade dos “media” tradicionais.

Na sua ânsia por sensacionalismo e visualizações, transformaram-se nos grandes propagadores deste tipo de, pensavam eles, má publicidade. Mas foi ela, precisamente, que levou Trump aos braços dos eleitores que o puseram no poder – quando as suas imprecações racistas, misóginas e homofóbicas encontraram eco na psique profunda de parte da América.

“Fahrenheit 11/9” escancara a facilidade com que um líder, baseado em violentas frases de efeito sem substância, ousa encontrar um lugar numa sociedade carente de líderes e desanimada com o seu papel de eleitor. “Quando os eleitores descreem no poder do voto, estamos a ver um prego no caixão da democracia”, diz Moore.

O seu filme, nem sempre focado, nem sempre certeiro, abordando temas importantes (o envenenamento da água pelo governador do Michigan para favorecer os interesses da General Motors, por exemplo) que ficariam melhor num outro trabalho, volta a acertar ao direcionar as atenções para o Partido Democrata – onde o próprio Barack Obama sai muito chamuscado no retrato.

Assim, o discurso e a figura messiânica de Trump vem ocupar uma lacuna deixada pelos próprios liberais que, no seu misto de ganância, pose e indiferença fazem, para usar a analogia de George Orwell no seu “O Triunfo dos Porcos”, os suínos parecerem-se cada vez mais com os humanos.

TRAILER "FAHRENHEIT 11/9".

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