"As cartas do rei Artur" começou por ser um projeto de documentário sobre Artur do Cruzeiro Seixas, um dos últimos sobreviventes do surrealismo português, hoje com 95 anos, tornou-se num resgate de memória sobre a relação dele com o poeta e artista Mário Cesariny.

Em declarações à agência Lusa, Cláudia Dias Silveira contou que foi fazendo entrevistas espaçadas a Cruzeiro Seixas e filmando os cadernos de anotações e desenhos do autor, depositados em Famalicão, até que, quase na fase final de rodagem, se apercebeu da constante referência, quase obsessiva, a Mário Cesariny.

Cruzeiro Seixas e Mário Cesariny, dois dos fundadores do surrealismo português, conheceram-se ainda nos tempos de escola e mantiveram uma relação durante várias décadas, marcada pela amizade, pela paixão e pela rutura.

O filme aborda a homossexualidade de ambos, a relação de Cruzeiro Seixas com a arte, com a forma de viver de Mário Cesariny, com África, que disse ter sido o grande amor de vida.

No documentário, o surrealista mostra arrependimento por algumas atitudes do passado, sobretudo da relação desencontrada com Cesariny. "Um dos meus suicídios foi em 1975 quando cortei relações com Cesariny", afirma no filme.

A par de excertos dos cadernos e diários e de imagens de arquivo, Cláudia Dias Silveira incluiu ainda a leitura de algumas das dezenas de cartas que Mário Cesariny escreveu a Cruzeiro Seixas.

No filme há ainda excertos do documentário "Autografia", de Miguel Gonçalves Mendes, como se este e "As cartas do rei Artur" se complementassem.

"Da minha vida nada vai ficar de definitivo. Não vivi, mas deixarei documentos desse não viver", afirma Cruzeiro Seixas no filme.

Cláudia Dias Silveira, que fez este filme a partir de uma proposta do realizador Miguel Gonçalves Mendes, diz que o documentário prova que Cruzeiro Seixas viveu, "teve uma vida cheia e preenchida", apesar de todas as contradições.

"As cartas do rei Artur", que integra a competição oficial do DocLisboa, é a primeira longa-metragem de Cláudia Dias Silveira, que anteriormente trabalhou com Pedro Costa ou Miguel Gonçalves Mendes e foi montadora do documentário "José & Pilar", deste realizador.

Na estreia, no domingo no cinema São Jorge, estará presente Artur do Cruzeiro Seixas.

"As cartas do rei Artur" deverá ter estreia comercial em janeiro.

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