A 70.ª edição do Festival de Cinema de Berlim, que decorre entre 20 de fevereiro e 3 de março de 2020, vai exibir o documentário “Apiyemiyekî?” (que significa “porquê”), uma coprodução entre Brasil, França, Holanda e Portugal, na secção Forum Expanded (Fórum Expandido), que fechou hoje (20) a programação, como indica o ‘site’ oficial do festival.

Nesta secção da Berlinale, será também exibido o filme “Crioulo Quântico”, da portuguesa Filipa César, uma coprodução entre Alemanha, França, Portugal, Espanha, cuja seleção tinha já sido anunciada pelo festival alemão, no passado mês de dezembro.

“Apiyemiyekî?” é um retrato cinematográfico produzido por Ana Vaz, que parte do arquivo de Egydio Schwade - Casa da Cultura de Urubuí, localizado no município Presidente Figueiredo, no Amazonas, que conserva mais de 3.000 desenhos do primeiro processo de alfabetização dos Waimiri-Atroari, povo nativo da Amazónia.

Entre as décadas de 1970 e 1990, o casal Egydio Schwade e Doroti Alice Müller Schwade fixou-se naquela região entre o Sul de Roraima e Norte do Amazonas, para apoiar o povo Waimiri-Atroari.

Durante esse percurso, foram guardando documentação que hoje compõe um arquivo que é o mais completo sobre a região, incluindo documentos raros sobre o povo Waimiri-Atroari, e sobre as várias construções que afetaram a região, como a estrada BR-174, a Hidroelétrica de Balbina e a Mineradora de Pitinga.

Esses desenhos, que documentam e constroem uma memória visual coletiva do processo de aprendizagem, da maneira de ver e pensar sobre o território, testemunham também a série de ataques sofridos durante a ditadura militar no Brasil e revelam a história traumática vivida pela população, remetendo para os dias de hoje.

O filme de Ana Vaz aborda o genocídio do povo Waimiri-Atroari durante a marcha para o centro oeste, na década de 1970, quando as terras indígenas foram invadidas para a construção da BR-174 e para a instalação da mineradora.

Quanto a “Crioulo Quântico”, da portuguesa Filipa César, que a Berlinale já selecionara em dezembro para a secção Forum Expanded, foi apresentado pela primeira vez em Lisboa, no âmbito da exposição “Filipa César. Crioulo Quântico”, dedicada ao projeto de investigação da artista que traça uma relação entre tecelagem tradicional africana e a linguagem da computação.

A mostra, com curadoria de Leonor Nazaré, esteve patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, entre 31 de maio e 02 de setembro deste ano, e aborda a crioulização para lá da linguagem e como modo de pensar o mundo.

O filme recorre a diferentes formatos de imagem em movimento (vídeo, película em 16 mm, animação 3D) e tem por referência têxteis e as plantas de algodão da Guiné-Bissau.

Na recém-criada secção competitiva Encontros – que tem por objetivo apoiar novas vozes no cinema e dar mais espaço a narrativas diversas e a formas documentais no programa oficial -, será exibido em estreia mundial o filme “A Metamorfose dos Pássaros”, de Catarina Vasconcelos.

Ainda no que respeita a participações nacionais, fazem parte do programa de Talentos do festival três profissionais portugueses: a ‘sound designer’ Joana Niza Braga (que trabalhou em filmes como “Variações”, “Colour Out of Space” ou “Free Solo”, que venceu o Óscar para Melhor Documentário em 2019), o realizador e argumentista José Magro (que criou as curtas-metragens “Viagem”, “Letters from Childhood” e “Rio entre as Montanhas”) e o realizador e editor Paulo Carneiro (de “Bostofrio”).

A estes, juntam-se também nove profissionais brasileiros e a moçambicana Lara Sousa, que leva a Berlim o projeto “O Navio e o Mar”, uma coprodução entre Brasil, Espanha, Moçambique e Portugal, que questiona “o que significa ser negro em África e na Diáspora”.

Na secção Forum Expanded, outros filmes brasileiros a serem exibidos são: “Jogos Dirigidos”, de Jonathas de Andrade, “(Outros) Fundamentos”, de Aline Mota, “Vaga Carne”, de Grace Passo e Ricardo Alves Jr. e “Letter from a Guarani Woman in Search of the Land Without Evil”, de Patricia Ferreira Pará Yxapy.

Na secção Fórum, há dois filmes brasileiros e uma coprodução selecionados para exibição: “Luz nos trópicos”, de Paula Gaitán, e “Vil, má”, de Gustavo Vinagre, além de “Chico ventana también quisiera tener un submarino”, coproduzido por Brasil/Uruguai/Argentina/Holanda/Filipinas.

A 70.ª edição do Festival de Cinema de Berlim vai decorrer entre 20 de fevereiro e 1 de março, sendo a primeira dirigida pela dupla de Mariette Rissenbeek, como diretora-executiva, e Chatrian, na direção artística.

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