O realizador português Joel Cartaxo Anjos contou a história da atriz afegã Marina Golbahari (por vezes também escrito Marina Gulbahari), vivida desde o país de origem até à chegada a França, como refugiada, numa curta-metragem que passa esta noite no canal de televisão France 3.

"Si loin de Kaboul" ("Tão longe de Cabul", em tradução livre) relata o percurso desde a sua carreira fulgurante, no Afeganistão, até ao pedido de asilo em França, devido à perseguição dos talibãs.

É a primeira curta-metragem produzida de Joel Cartaxo Anjos. O seu projeto foi um dos seis selecionados do seu mestrado de Cinema Realização, Escrita e Produção da Universidade Panthéon-Sorbonne para ser financiado, produzido e posteriormente mostrado em festivais e na televisão.

Neste filme, o realizador português, que estuda em Paris desde os 19 anos, quis dar voz à atriz afegã conhecida internacionalmente por ter protagonizado o filme "Osama", de Siddiq Barmak, onde interpretava uma jovem que se disfarçava de homem (Osama) para sustentar a sua família durante o regime talibã.

Ironicamente, o filme, o primeiro rodado no Afeganistão após a queda desse regime, que abolira o cinema, ganhou o Globo de Ouro para Melhor Filme de Língua Estrangeira em 2004, mas anos mais tarde Marina Golbahari foi obrigada a sair do país devido à perseguição dos talibãs.

"O que me interessava era explorar a ausência de espaços de criação para artistas refugiados em França, e eu encontrei a Marina desta maneira. Depois foi através da associação Usages du Monde au 21ème Siècle, que apoia artistas refugiados em França, que cheguei a ela. E foi evidente que queria trabalhar com ela porque representa uma camada muito grande de pessoas que estão na mesma situação", indicou o realizador, em declarações à agência Lusa.

Após se ter estreado nos ecrãs com apenas 13 anos, através da lente de Barmak, Marina Golbahari, que foi descoberta pelo realizador na rua e não sabia ler nem escrever, teve uma carreira bem sucedida, protagonizando vários filmes de autor e entrando em séries e novelas na televisão afegã.

No entanto, numa presença no Festival de Busan, em 2015, na Coreia do Sul, Marina desafiou as normas impostas às mulheres do seu país e não usou o véu publicamente, sendo posteriormente avisada pela sua família para não voltar ao Afeganistão, porque as imagens da sua cabeça descoberta já tinham sido vistas pelas autoridades.

A atriz pediu assim asilo em França, passando por um período num campo de refugiados, antes de se instalar em Paris.

"Eu queria voltar a trabalhar quando cheguei, mas pensei que não seria possível, porque não sabia falar francês e nem conhecia as pessoas. Mas, aos poucos, consegui fazer algumas coisas, fiz um papel numa curta, mas até há dois meses ainda duvidava se ia realmente conseguir", disse a atriz à Lusa.

No filme de Joel Cartaxo Anjos, Marina lê uma carta à família que deixou no Afeganistão e expressa o que viveu - nomeadamente um ataque ao teatro do Instituto Francês, em 2014, em Cabul, enquanto assistia a uma peça levada a cabo por colegas -, as dificuldades de viver longe da família e de ter deixado a sua carreira.

No entanto, desde que o filme começou a ser mostrado - teve a sua estreia no festival Premiers Plans, em Angers, em janeiro, e uma estreia em Paris já este mês - Marina Golbahari, que hesitou em aceitar o convite do realizador português, diz ter voltado a ganhar confiança no futuro.

"Este filme é como o início da minha vida em Paris. Eu sempre quis contar a minha história para toda a gente. Espero que este filme continue e a ser mostrado. Também quero continuar a minha carreira, e acho que este é um primeiro passo para isso acontecer", afirmou.

O filme teve cerca de cinco meses de preparação para o guião, durante os quais Joel Cartaxo Anjos trabalhou diretamente com o cineasta Siddiq Barmak, também refugiado em França, numa experiência que o realizador português descreve como "extraordinária".

"Si loin de Kaboul" será mostrado esta madrugada na televisão France 3, e a ideia é levar o filme a vários festivais franceses e fora do país. Ao mesmo tempo, Joel Cartaxo Anjos já está a trabalhar num novo projecto sobre a crise migratória e os pedidos de asilo em França.

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