Até aos anos 90, o mercado de longa-metragem de animação era dominado pelos EUA e pelo Japão, que reuniam entre si o grosso da produção. Nos anos 2000, a quantidade e variedade geográfica dessa produção explodiu, e o sucesso mundial de filmes como
«Belleville Rendez-vous»,
«A Valsa com Bashir» ou
«Persépolis» comprovaram que há publico para fitas fora do eixo estético habitual das longas norte-americanas e nipónicas.

Este ano, foram propostas a competição no Festival de Animação de Annecy nada menos que 64 longas-metragens (um número que, antes dos anos 90, não se atingia nem numa década de produção), com nove a serem escolhidas para a competição oficial: três francesas, duas sul-coreanas, uma espanhola, uma dinamarquesa e uma coprodução entre a China e o Japão. A variedade geográfica é notória, mas a diversidade de estilos e de públicos não o é menos. A França continua a comprovar que está a atravessar o melhor momento da sua história no campo da longa-metragem de animação, após o sucesso de filmes como
«O Mágico» ou
«Persépolis».

Pela sua imensa qualidade,
«Le Chat do Rabin», baseado numa banda desenhada de Joann Sfar (cujos três primeiros volumes foram publicados em Portugal num único livro pelas Edições Asa), vai certamente ocupar um espaço privilegiado de reconhecimento internacional equivalente ao dos dois títulos acima. Realizado pelo próprio Sfar em parceria com Antoine Delesvaux, o filme passa-se na Algéria na década de 30, e centra-se no gato de um rabino que decide praticar o judaísmo depois de aprender a falar, e que acompanha o dono numa viagem de fundo religioso e aventureiro por África.

Sfar diz que «a religião é algo sério demais para ser deixada aos crentes» e efetivamente o filme é uma reflexão inteligente, profunda e desempoeirada sobre as várias religiões e a relação positiva e negativa que cada uma tem de si e dos outros. «Le Chat do Rabbin» destaca-se também pelo uso impressionante que faz das três dimensões, muito invulgar numa obra de desenho animado que assume em pleno a bidimensionalidade do seu traço.

Também da França chegaram
«Une Vie de Chat», a terceira e a melhor longa-metragem do estúdio Folimage, assinada por Jean-Loup Felicioli e Alain Gagnol, também em desenho animado, um filme policial sobre um ladrão que percorre os telhados de Paris com um gato e faz amizade com uma jovem orfã de pai. Um projeto visualmente impressionante, com um grafismo invulgar e muito conseguido.

Ainda em desenho animado é
«L'Apprenti Père Noël», de Luc Vinciguerra, mais focado no público jovem, sobre um jovem australiano que é convidado para ser o aprendiz do Pai Natal. Trata-se de um bom filme para crianças, bem estruturado embora sem surpresas de maior, com um uso apelativo da cor.

Do Oriente chegaram quatro longas, duas delas da Coreia do Sul. Uma delas,
«Jib - The House» (assinada por Mi Sun Park, Eun Young Park, Ju-young Ban, Jae Ho Lee e Hyun-jin Lee) é a mais fraca da competição, devido à animação muito débil, mas é, ainda assim, um esforço curioso, numa história sobre uma mulher que perdeu todo o dinheiro que tinha e se vê forçada a ir morar na zona pobre de Seoul, onde encontra o espírito que vive na sua casa.

Muito mais conseguido é o sensível
«Green Days - Dinosaur and I», de Jae-hoon An e Hye-jin Han, um drama humanista sobre a adolescência e os primeiros amores, sobre os pequenos atos e emoções do dia-a-dia, numa história que podia ser feita em imagem real e que só os orientais arriscariam transformar em animação.

Do Japão chegou
«Colorful», de Keiichi Hara, baseado no livro de Eto Mori, sobre uma alma que depois de morta encarna num jovem de 14 anos que acaba de sobreviver a uma tentativa de suicídio, e tenta descobrir a razão do sucedido. Um filme doloroso e redentor, recheado de dramas familiares e traumas de juventude, também significativo da abertura com que os nipónicos encaram o cinema de animação, usado para retratar não só histórias impossíveis mas também dramas mundanos.

Alguns anos após apresentar «Piano Forest» em Annecy, Masayuki Kojima regressa para apresentar
«The Tibetan Dog», uma coprodução entre a China e o Japão, sobre um rapaz que deixa a cidade para viver na pradaria tibetana com o pai, e que encontra na amizade com um cão tibetano uma compensação afetiva para a dureza da vida que leva. Mais uma obra poderosa, carregada de sentimento, com todo o profissionalismo e eficácia das melhores produções nipónicas.

Da Espanha foi apresentado um dos melhores filmes da competição,
«Chico & Rita», que marca a estreia do oscarizado
Fernando Trueba (
«Belle Epoque») na realização da longas de animação, em parceria com Tono Errando e Javier Mariscal, que assegura todo o livro de estilo gráfico da película. Um tributo à música cubana dos anos 40 e 50, com os encontros e desencontros amorosos de um pianista e uma cantora, com Havana, Nova Iorque e Las Vegas como pano de fundo, e uma banda sonora musical com temas de Thelonious Monk, Cole Porter, Dizzy Gillespie e Freddy Cole. Mesmo a dependência da rotoscopia (que decalca os movimentos de atores reais) acaba por funcionar no universo gráfico completamente estilizado de Mariscal, numa fantasia musical que se pode vir a tornar outro dos grandes sucessos do cinema animado exterior aos padrões habituais.

É importante sublinhar que dos nove filmes integrantes da competição oficial de longas-metragens de Annecy, apenas um é em animação por computador, o dinamarquês
«The Great Bear», de Esben Toft Jacobsen, sendo todos os restantes em desenho animado, uma tendência que marca um recuo face à influência aparentemente avassaladora da animação informática. Sem recurso às tecnologias mais avançadas da Pixar ou da DreamWorks, o filme consegue ainda assim um resultado bem acima da média, numa história em tom de fábula, bastante bem ritmada e visualmente eficaz de dois irmãos e de um urso gigantesco numa floresta quase virgem e de acesso proibido.

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