Um número sem precedentes de filmes consagrados a diferentes perspectivas da barbárie nazi chegou aos cinemas norte-americanos no final do ano passado, um período propício para lançar no mercado as fitas que se esperam estar entre os nomeados aos Óscares.

Entre os títulos deste ano, destacam-se
«O Leitor»,
«O Rapaz do Pijama às Riscas»,
«Valquíria»,
«Resistentes», «Good» e «Adam Resurrected».

O primeiro recebeu cinco nomeações aos prémios da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas, entre elas a de Melhor Filme, Melhor Realizador, para Stephen Daldry, e Melhor Actriz, para Kate Winslet, que interpreta uma ex-vigilante de um campo de concentração.

No entanto, o jornalista nova-iorquino Ron Rosenbaum, autor de um livro sobre Hitler, considerou
«O Leitor» «o pior filme feito até hoje sobre o Holocausto».

Na sua opinião, «é um filme cuja metáfora principal consiste em desculpar os alemães que viveram a época nazi da sua cumplicidade por terem estado a par da solução final», afirmou no site
Slate.com.

«O facto da ter sido recentemente nomeado para o Óscar de Melhor Filme demonstra que Hollywood parece pensar que, como se se trata de uma película «sobre o Holocausto», ela tem de ser honrada, só isso», acrescentou.

Andrew Wallenstein, chefe de redacção adjunto do periódico «The Hollywood Reporter», especializado em entretenimento, acusou os estúdios de «explorarem uma tragédia para ganharem o tipo de dimensão que o Holocausto confere».

Para Wallenstein, é preciso parar e reflectir «no momento do lançamento destes filmes». Há que dizê-lo: a verdadeira razão pela qual vemos muitas destas fitas nesta altura é porque os estúdios estão a farejar os prémios», declarou em entrevista à rádio pública NPR.

Em 1994,
«A Lista de Schindler» recebeu sete Óscares. Em 1999, o italiano
«A Vida é Bela» ganhou três troféus, incluindo o de Melhor Filme Estrangeiro e, caso raríssimo na Academia para um filme não falado em inglês, Melhor Actor.

Já em 2003,
«O Pianista» recebeu três estatuetas, enquanto em 2008 o prémio de Melhor Filme Estrangeiro foi para
«Os Falsificadores», longa-metragem austríaca ambientada num campo nazi.

Annette Insdorf, autora de um ensaio sobre o cinema e o Holocausto, reconhece que muitos filmes sobre o tema têm sido premiados pela Academia, embora, na sua opinião, tal não represente mais que «o fascínio de Hollywood por histórias de conflito, de luta e redenção».

Ela discorda das críticas a
«O Leitor» por considerar que não se trata de um longa-metragem sobre o Holocausto no sentido estrito. «O filme aborda a aprendizagem de um jovem. Há uma mulher com um segredo que remonta à Segunda Guerra Mundial que é vista através dos olhos de um jovem apaixonado. Estas personagens só se encontram depois da guerra», sublinha.

Para Scott Feinberg, editor do suplemento de cultura do «Los Angeles Times», os filmes sobre o Holocausto seduzem a Academia porque são obras «com uma mensagem importante. Mas Hollywood é alvo de uma grande polémica este ano devido a filmes como
«O Leitor». Muitas pessoas estão furiosas porque dizem que é uma tentativa descarada de ganhar um Óscar», explica Feinberg à AFP.

A inclusão de
«O Leitor» entre os cinco nomeados a
Melhor Filme surpreendeu toda a gente, até por ter sido considerada a longa-metragem que roubou o protagonismo de
«O Cavaleiro das Trevas».

«Claro que há preconceitos contra alguns filmes, assim como também existem preconceitos favoráveis a outros géneros cinematográficos, o que deu um impulso decisivo a «O Leitor», conclui o jornalista.

SAPO/AFP

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