O ciclo "O 'Roman Porno' apresentará os seus dois últimos filmes, que serão novamente projetados no Espaço Nimas, em Lisboa.

O "Roman Porno" nasceu da necessidade de enfrentar a queda abrupta da afluência de público japonês às salas na década de 1970: o estúdio Nikkatsu avançou para filmes de baixo orçamento e de duração que não ultrapassasse a hora e meia, para que fosse exibido em "sessões duplas".

Os filmes invocavam sexo “semiexplícito” numa altura em que o país estava dominado por uma forte censura e era explicitamente proibida a exibição de qualquer órgão genital, o que levou vários realizadores a exercitar o engenho criativo, ao mesmo tempo que faziam evidentes referências e presunções cinematográficas, e focavam diversos temas tabus ou de cariz político-social.

O impacto foi tal que, em 2016, para celebrar o 45º aniversário, cinco realizadores modernos foram desafiados a replicar os moldes aplicados nesses tempos áureos.

Desde o dia 18 de junho que o cinema tem iniciado esta viagem pelo movimento legitimado pelo estúdio Nikkatsu [1971-2016]. No total, são apresentadas cópias digitais restauradas de cinco filmes do “porno romântico” saídos daquele estúdio japonês na década de 1970 e outros tantos de 2016 que replicaram o formato.

A quinta e derradeira parte do ciclo junta “Os Amantes Molhados", de 1973 (dias 16 e 18 de julho às 19h00 e 20 de julho e 1 de agosto às 21h30 no Nimas, em Lisboa e ainda 17 e 27 de julho no Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto) e “À Sombra das Jovens Raparigas Húmidas", de 2016 (dia 17 e 19 de julho às 19h00 e 21 de julho e 4 de agosto às 21h30 no Nimas, em Lisboa, e ainda 18 e 28 de julho no Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto).

 «Os Amantes Molhados»: o vai-e-vêm do sexo e violência da Nikkatsu

Os Amantes Molhados

Perante a tão apertada censura japonesa (o artigo 175 do Código Penal nipónico proíbe, até hoje, a representação explícita de órgãos genitais nas mais diferentes formas artísticas), o realizador Tasumi Kumashiro (um dos realizadores mais característicos do movimento permutado pela Nikkatsu) eleva-se perante um gesto de troça.

Enquanto dois amantes copulam num prado sob as “vestes” de uma chapa negra, deixando em incógnito os seus corpos nus (a invocação injuriada dos agrestes veículos da censura), o protagonista aproxima-se suavemente em modo de furtivo voyeurista, abordando-os sem compaixão por eles. “O que é pior, espreitar ou mostrar?”.

Sim, é a provocação, injetada em “Os Amantes Molhados” (“Koibito-tachi wa nureta”, 1973), servindo de membrana para todo o movimento permutado pela Nikkatsu – o de levar o sexo ao limite da sua estética possível, ao mesmo tempo aproveitando esses momentos carnais e lascivos como atração para uma audiência “envenenada” pelos conteúdos controlados do boom televisivo.

Por isso mesmo, filmes como estes, embebidos na amoralidade das agressividades sem consequências, são mostras de temáticas, imagens e potências que de forma alguma seriam aprovadas em pequenos ecrãs no conforto do lar.

O “roman porno” à luz desta obra de Kumashiro, reporta o cinema em sala não como o “motivador” escape do mundo real mas sim como um espaço de experimentação, de aliciantes desafios libertados (temporariamente) pelo crepúsculo da sala de projeção, inibindo o espectador de qualquer culpa no que está a ser visto e sentido.

Esta é a história de vagabundos que vêm “sabe-se lá donde”, trazendo consigo um rasto de caos, perversões e delinquências tardias, enquanto pedalam nas suas bicicletas “desenrascadas” (o filme abre e fecha sob essas voltas e reviravoltas da viatura em si).

“Os Amantes Molhados” riposta num errante que entrega bobines aos variados cinemas, nunca falando do seu passado, e desprezando qualquer indício material e afetivo. Cantarola como quisesse (popularmente falando) os seus “males espantar”, ao mesmo tempo sem perceber que o seu desapego ético o torna num animalesco ser no sabor do “agora”. Sem remorsos e reflexões.

“Os Amantes Molhados” é de um niilismo afetado pela brutalidade do contemporâneo consumista e do Japão na sua constante dúvida existencial.

 «À Sombra das Jovens Raparigas Húmidas»: o desejo é destrutivo, quando quer e quando pode

À Sombra das Jovens Raparigas Húmidas

Tal como o filme que homenageia, “À Sombra das Jovens Raparigas Húmidas” (“Kaze ni nureta onna”, 2016), de Akihiko Shiota, embarca com pedalada na bicicleta de seres errantes. Aqui, a dita vagabundagem tem o adversário à sua altura – o eremitismo.

Porém, os papéis distorcem, a nómada é uma jovem sem paradeiro de um incontrolável desejo lascivo e o eremita é um dramaturgo que se refugia no seio do “selvagem”, sobrevivendo somente com os resquícios da sua anterior “civilização”. Este choque gerará um constante jogo de sexo procrastinado em prol de tensões que enlouquecem e que “colherão tempestades”.

Depois do espírito indomável e livre (fisicamente, psicologicamente ou eticamente) de “Os Amantes Molhados”, somos induzidos a um conto de verão, de suor e mamilos com luzes para os enfoques rohmerianos, isto é, relativos ao cineasta francês Eric Rohmer, dotado de provérbios cinematográficos.

Tudo é caoticamente caricato, absurdista e, ao seu jeito, descomprometido ao lidar com razões ou moralidades de quem quer que seja. É um objeto munido, movido e consequentemente transgredido pelo seu desejo, seja pelo seu representativo clímax, seja pela vontade de filmar corpos insaciáveis. O sexo é aqui energia, improvisada, dramática que funde com a simplicidade e a ingenuidade de um filme que ambiciona ser consumido sem nunca sonhar com a devoção.

Como "double bill", “Os Amantes Molhados” e “À Sombra das Jovens Raparigas Húmidas” provam-se num dessincronizado, mas confiado tango de prazeres “impuros”.

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