A espera chegou ao fim: "Han Solo: uma História de Star Wars" está nas salas de cinema, pronto para ver avaliado por milhões de apaixonados e muitas vezes implacáveis fãs.

O filme de Ron Howard, dizem os críticos, evitou o pior e quase se pode aplicar o lema do seu herói: "tenho um bom pressentimento sobre isto". Porque não é o desastre que alguns poderiam imaginar depois de uma produção com tantos dramas.

É que, apesar do habitual músculo da máquina de marketing da Disney, com muitos sorrisos nas passadeiras vermelhas,  até com honras de sessão especial no Festival de Cannes, e boa disposição nas muitas entrevistas, nunca houve um filme da saga com uma intriga de bastidores tão complicada, desde realizadores despedidos a rumores de que foi necessário contratar um professor de representação... para ajudar o ator principal.

Um projeto de 250 milhões de dólares... entra em curto-circuito

Foi em fevereiro de 2013 que se soube que a Disney, que comprara alguns meses antes a Lucasfilm a George Lucas por quatro mil milhões de dólares, tinha a intenção não só de fazer uma nova trilogia "Star Wars", mas também uma nova fornada de filmes centrados nas personagens da saga, isolados dos "episódios". Um deles seria sobre Han Solo.

Quando o estúdio confirmou finalmente a 8 de julho de 2015 que ia avançar com um "spin off" centrado no irresistível vigarista da galáxia muito, muito distante, realizado por Christopher Miller e Phil Lord, os mesmos de "O Filme Lego" e "Agentes Secundários" (e a sequela), e mais tarde publicou uma imagem deles e com elenco no primeiro dia da rodagem, não podia adivinhar que estavam todos a caminho de um desastre.

Claro que a saga teve a sua dose de problemas ao longo da história. George Lucas tinha sempre o estúdio a espreitar por cima do ombro quando fez o primeiro "Star Wars" (1977). Tony Gilroy foi chamado para reescrever e filmar cenas que dessem coerência ao primeiro "spin off", "Rogue One: Uma História de Star Wars" (2016), à margem do realizador original, Gareth Edwards. A rodagem do "Episódio VIII: Os Últimos Jedi" (2017) parou um mês para "reescrever o argumento". E, claro, Colin Trevorrow, anunciado em agosto de 2015 como o realizador do "Episódio IX", foi dispensado por "diferenças criativas" em setembro de 2017, sendo chamado de volta J. J. Abrams, que dirigiu de forma aparentemente tranquila o "Episódio VII: O Despertar da Força" (2015).

O que separa todos estes "desacordos criativos" do que aconteceu com "Han Solo: Uma História de Star Wars" foi a sua dimensão pública, com a Lucasfilm a lançar a 20 de junho de 2017 uma autêntica bomba: Phil Lord e Christopher Miller deixavam o projeto... ao fim de quatro meses de rodagem.

Após ano e meio de preparação e decisões criativas, nomeadamente a escolha de Alden Ehrenreich como Han Solo e na formação do restante elenco (Donald Glover, Emilia Clarke, Woody Harrelson, Thandie Newton, etc.), as razões apontadas foram as habituais... "diferenças criativas".

Rapidamente se percebeu que a sua partida forçada numa pausa da rodagem foi uma situação bastante invulgar: eles foram mesmo despedidos. E a pergunta era claro: o que aconteceu para tudo descarrilar numa produção deste nível, quando faltavam três semanas de filmagens, com 80% das cenas feitas e muitos milhões de dólares gastos?

Conflitos duravam há meses

De acordo com a Variety, o afastamento dos realizadores aconteceu após meses de conflitos com Kathleen Kennedy, presidente da Lucasfilm e outros elementos da equipa, além do co-argumentista Lawrence Kasdan.

Segunda a publicação, Miller e Lord ficaram "espantados" por descobrir que não lhes estava a ser dada liberdade para gerir a produção como estavam habituados e revoltaram-se com o controlo apertado na rodagem exercido por Kennedy.

Uma fonte da produção não teve dúvidas em dizer que a relação entre os três nunca correu bem: "Foi um choque de culturas desde o primeiro dia. Ela nem gostava da forma como eles dobravam as meias".

Embora os realizadores tivessem sido "supostamente contratados pela sua visão e marca distintiva de cinema" em relação à saga "Star Wars", Kennedy não aprovava o seu estilo de rodagem e processo de interagir com os atores e a equipa.

"Não lhes foi dada a margem de manobra para fazer o que tinham que fazer", garantiu a mesma fonte.

Miller e Lord também chocaram com o co-argumentista Lawrence Kasdan, que questionava muitas das suas decisões e está envolvido na saga desde "O Império Contra-Ataca" em 1980.

"Kathy [Kathleen Kennedy], a sua equipa e Larry Kasdan trabalham à sua maneira há bastante tempo. Sabem como o queijo é feito e é assim que eles querem que seja feito. Tornou-se uma rodagem muito conflituosa", concluiu a fonte da Variety.

A intriga adensa-se...

A 22 de junho, apenas dois dias após a notícia chocante do despedimento, Ron Howard foi anunciado como o novo realizador e garantia-se que a data de estreia de "Han Solo" ia ser cumprida à mesma: 25 de maio de 2018.

Ao mesmo tempo, o muito conceituado site de fãs Star Wars News Net publicava um artigo aprofundado sobre todos os dramas e choques de bastidores entre o duo de realizadores, Kathleen Kennedy e Lawrence Kasdan.

Miller e Lord estariam a abordar de forma mais cómica a personagem de Han Solo e isso não estaria a agradar a várias pessoas, mas a grande novidade é que uma delas era o próprio ator Alden Ehrenreich.

"Ele começou a preocupar-se que o ponto de vista de comédia maluca estava a começar a interferir com o que realmente é a personagem de Han Solo, mesmo se este fosse uma versão mais jovem e ousada da personagem do que aquela que conhecemos naquela Cantina em Tatooine. Uma fonte descreveu-o como sendo por vezes estranhamente comparável à interpretação de Jim Carrey em 'Ace Ventura'", explicava o artigo.

"Ehrenreich deu a conhecer as suas preocupações a um dos produtores, que por sua vez contou a Kennedy, o que a levou a tomar a decisão de ver o que já tinha sido filmado", continuou a fonte.

Quando isso aconteceu, as coisas complicaram-se e desapareceu o tom positivo que existiu durante grande parte da produção e rodagem.

"A razão para as pessoas próximas do projeto gostarem é que viram várias cenas isoladas. No entanto, os problemas apresentaram-se de forma mais clara quando uma montagem começou a ser feita e foi nessa altura que Kennedy e Kasdan, bem como outras pessoas sob o seu comando, começaram a ficar bastante preocupadas".

O tom mais cómico das interpretações e as cenas de ação foram as grandes objeções, além do método de trabalho de improvisação dos realizadores, com a Lucasfilm a querer que o filme fosse mais fiel ao argumento de Kasdan. Com a intenção de colocar a produção nos eixos que pretendia, o estúdio enviou-o a Londres, mas Lord e Miller deram conta do seu descontentamento com a presença desta "sombra".

Finalmente, quando lhes foi dito que teriam de resolver os problemas com as refilmagens, os realizadores não quiserem comprometer as suas escolhas e as posições começaram a extremar-se. Eventualmente as "diferenças criativas" tornaram-se... irreconciliáveis.

A intriga adensa-se...

Com Ron Howard a seguir logo para Londres para preparar as novas filmagens, marcadas para a 10 de julho, uma nova notícia dava conta que os problemas nesta nova aventura espacial iam para lá do trabalho dos realizadores despedidos.

De acordo com o The Hollywood Reporter (THR), a Lucasfilm também não estava contente com um aspeto crucial do filme: a interpretação de Alden Ehrenreich.

Para fazer face a isso, fora decidido contratar um professor para conseguir a interpretação o que o estúdio sentia que Lord e Miller não estavam a extrair do ator de 27 anos. Como referia o THR, embora uma decisão que não fosse inédita, a contratação de uma ajuda numa fase tão tardia da produção já era menos habitual.

Finalmente, a paz regressou à galáxia

A chegada de Ron Howard devolveu confiança e tranquilidade ao projeto, garantem atores e fontes da equipa técnica.

O estúdio também começou a combater a publicade negativa: numa longa entrevista ao The Hollywood Reporter logo em julho, Woody Harrelson por exemplo revelava que adorava os realizadores que perderam o emprego mas descreveu o seu substituto "como um tipo maravilhoso".

"Acho que li algumas coisas em que as pessoas estavam preocupadas com o destino deste filme. Eu não ficaria preocupado. A Força ainda está muito com ele", tranquilizou.

George Lucas, amigo e mentor, também deu apoio moral: apareceu de surpresa no primeiro dia de trabalho para o encorajar e, ao contrário do que estava previsto, acabou por ficar o dia todo com a equipa.

Oficialmente com a missão de acabar as três semanas de rodagem que faltavam, bem como as cinco de refilmagens, habituais nestas produções, que estavam previstas para mais tarde, sabe-se agora que Ron Howard acabou por refazer 70% do filme.

Claramente o homem certo para cumprir a visão original da Lucasfilm e com a paz de regresso à galáxia para cumprir a data de estreia, coube-lhe a ele anunciar a 17 de outubro, no último dia de rodagem, o título oficial... do "seu" filme.

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