A HISTÓRIA: Ivo Salvini (Roberto Benigni) é um lunático visionário de alma inocente. Delicia-se com a vida provinciana e nutre um amor desmesurado por Aldina (Nadia Ottaviani), a mulher que ele diz ter o rosto da Lua.

"A Voz da Lua". Reposição nos cinemas a 10 de setembro.


Crítica: Hugo Gomes

Não faremos suspense algum em relação ao facto de “A Voz da Lua” ser o último dos trabalhos de Federico Fellini (falecido em 1993, três anos após o seu lançamento). Ou que foi criticado à época e nem mesmo os mais "fellinianos" conseguiram contrariar a tendência. Mas hoje, com a distância do tempo, podemos desenterrar nestes "iluminados lunares" um sereno e triste adeus, o de um homem derrotado por uma indústria que lhe falhara.

Baseado no romance “O Poema dos Lunáticos”, de Ermanno Cavazzoni, que também co-escreve o argumento, “A Voz da Lua” permanece o deambular de um louco, inocente e de perceção encantada perante um mundo em forte e rápida mudança, discutindo com os velhos “amigos”, eremitas de um destino não-concretizado.

Nesta jornada, Roberto Benigni (antes do sucesso global de “A Vida É Bela”) assume este seu papel-tipo, o mesmo que levaria até às últimas consequências em “Pinóquio”. E assim somos paralelizados com o percurso de um cineasta, grande e “mentiroso”, homem forte de um movimento que fortaleceu uma máquina operativa de cinema em italiano.

O brilho do maestro Fellini tenta resistir ao seu possível esquecimento, provocado por um "boom" televisivo que seria um útil instrumento político em Itália e também o carrasco do estilo dito “felliniano”, que soaria cada vez mais caducado perante a chegada de novos autores, estéticas e formalizações.

Neste contexto de decadência de um sistema italiano a torná-lo obsoleto, Fellini foi preservado como uma "espécie em vias de extinção", ou, apropriando-nos de “A Voz da Lua”, um lunático convencido que o seu ambiente se mantém intacto ao longo da existência artística.

Hoje, “A Voz da Lua” parece-nos o soneto melancólico de um eventual adeus, mas fora isso, é a sua entropia "felliniana" que o mantêm próximo do brilhante satélite que é o realizador. Aquelas personagens caricatas, excêntricas e convidativas de uma Itália de outros palcos, as constantes invocações do passado que se distancia mais e mais, deixando-nos nus face a um futuro sem filões, são marcas de Fellini recitadas num esforço incansável, mas reveladoras do seu imenso cansaço. Uma fadiga assente em persistência.

“A Voz da Lua” é o filme de Fellini mais fascinado com o desencanto à sua volta com o imaginário que criara ao longo de décadas de cinema. É Fellini e basta, mas o Fellini triste e inconsolado. Uma obra que merece uma nova vida para além do seu maldito estatuto. Merece, sim, compaixão.