A HISTÓRIA: Numa mansão rural misteriosa, Kate, a nova ama, está encarregada de cuidar de dois órfãos perturbados, Flora e Miles. Mas Kate depressa se apercebe que as duas crianças e a casa albergam segredos tenebrosos e que as coisas poderão não ser aquilo que parecem.


Ao contrário do que o título original sugere ("The Turning" = a reviravolta), não há volta a dar aqui: o cinema de terror parece contaminado e subjugado por um imenso peso de legado. Restam os mais bafientos lugares-comuns, clichés ou inexpressividades nos seus "jump scares" (os sustos).

Adaptado de um clássico literário de Henry James, que já deu o muito bem-sucedido “Os Inocentes” (Jack Clayton, 1961), este "Calafrio" não é diferente, pegando no tradicional modelo de “casa assombrada” para empestar-nos com uma narrativa subserviente a uma reviravolta final, que tem tanto de críptica como previsível … e já agora, ridículo.

“Calafrio” está a ser vendido como uma nova sofisticação dos argumentistas de “The Conjuring: A Evocação”, hoje tido como o último grito do terror para massas, mas acaba por ser uma daquelas promoções "gato por lebre": a saga conseguia, dentro dos seus limites, constantemente criar e recriar os sustos (há nele uma certa marca do realizador James Wan), enquanto este filme é pobre na condução pelos espaços armadilhados desses dispositivos de medo.

Por palavras mais amenas, estamos perante a imaginação dos sustos em modo “pop-up”. O conceito é criar mecanismos para assustar e depois despachá-los às três pancadas sob a melodia de uma banda sonora denunciadora e barulhenta. Já os “fantasmas” enevoados que pairam de forma passageira são simplesmente apendicites.

A somar a tudo isto está o próprio desaproveitamento do espaço cénico, onde o espectador perde a perceção de onde está o quê, enquanto os filme “The Conjuring” fazem constantemente visitas guiadas em modo "travelling" que nos levam para experiências aleatórias de “comboio-fantasma”.

Existe aqui um esforço da realizadora Floria Sigismondi (cuja carreira oscila entre videoclipes, séries e cinema) em condensar toda a estagnação numa produção de requinte, tendo como aliada tem à sua mercê Mackenzie Davis (a fazer o que pode e a mais não é obrigada). Só que a confusão reina em "Calafrio", em conformidade com a escassez criativa e o dinamismo de uma narrativa esfumaçada pela neblina que se concentra no desenvolvimento psicológico da sua protagonista (nada contra este último ponto se existisse a capacidade de o tornar credível, mas vê-se que nem é capaz disso).

Uma confissão final: a nossa grande lamentação é constatar que a pequena Brooklynn Prince, que há três anos nos deu uma das interpretações naturalistas mais arrebatadoras que há memória no cinema "indie" norte-americano com “The Florida Project”, de Sean Baker, tenha aqui uma participação sofrível. Mas perdoaremos, até porque pode ser uma questão de deficiente direção de atores.

Quanto ao resto... só Deus perdoará esta oportunidade perdida.

"Calafrio": nos cinemas a 23 de janeiro.

Crítica: Hugo Gomes

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