O amor é uma anomalia. De repente, do meio da multidão anónima, vulgar, surge um ser que se distingue de todos os outros. A sua singularidade faz colapsar o tempo e o espaço. Para aquele que ama, ele é o centro do universo. Todo o universo. Absoluto, misterioso, incomparável. A resposta para a existência. Depois chega a manhã.

Kaufman não é um cínico, mas ele conhece bem as suas personagens, e «Anomalisa» não é um filme sobre o amor, ou sobre Lisa (o sufixo no título). Este filme, como quase todos os que Kaufman já escreveu ou realizou, é sobre um homem virado para dentro.

O argumento nasceu de um texto escrito para ser lido em palco – uma espécie de peça de teatro falado – que Kaufman criou em 2005 sob o pseudónimo de Francis Fregoli. Passados 10 anos, e depois do fracasso de bilheteira de «Sinédoque, Nova Iorque» (2008), Kaufman escapou aos constrangimentos dos estúdios e conseguiu dar nova vida à sua história através de um processo de crowdfunding. A escolha do formato, a animação em stop-motion, é também por isso bastante curiosa. Numa produção tão pequena, em que não há espaço para derrapagens orçamentais e se avança à velocidade estonteante de 2 segundos por dia, cada plano é um plano. Fazer cinema assim aproxima-se de um ato de fé.

É comovente testemunhar em cada gesto, em cada cambiante de luz todo o empenho e persistência da extensa equipa de animadores, escultores, técnicos de luz e de som que fizeram de «Anomalisa», como já se disse, o filme mais humano que temos em sala. O que é que quer dizer “mais humano” ou, simplesmente, “humano”? Esta é a questão com que o protagonista do filme, Michael Stone (voz de David Thewlis), se debate.

Michael é um escritor motivacional, autor do best-seller “Como Posso Ajudá-lo a Ajudá-los?”. Acompanhamo-lo na sua curta viagem a Cincinnati, onde vai dar uma palestra sobre técnicas de melhoria no serviço de apoio ao cliente. Direcionado para o mundo empresarial, onde os seus conselhos já ajudaram a aumentar em 90% a produtividade de centenas de empresas, o trabalho de Michael passa por destacar a importância do sorriso na interação com os clientes que devem ser olhados como amigos, tratados como indivíduos únicos. A ironia está, é claro, na absoluta falta de empatia que Michael revela não só no contacto com estranhos (o taxista, o rececionista do hotel, o empregado de mesa), mas especialmente com a mulher e o filho pequeno. Sob a lente do seu perpétuo enfado, parecem-lhe todos iguais.

O modo como Kaufman e Duke Johnson ilustram o colapso emocional da personagem é simples e brilhante e por isso deixo os pormenores para o espetador descobrir sozinho. Mas é certo que vai encontrar neste filme os típicos ingredientes kaufmanianos: o humor negro e a dimensão absurda do quotidiano. A aposta dos autores no contraste entre o realismo perfeito dos cenários e das situações com a manifesta artificialidade da fisionomia das marionetas contribui para uma estranha sensação de familiaridade hostil. «Anomalisa» é uma experiência autorreflexiva.

A identificação inevitável com Michael deixa-nos desconfortáveis. Quando Lisa (voz de Jennifer Jason Leigh) entra em cena, interrompendo abruptamente o ciclo vicioso de indiferença, irritação e tédio no qual Michael vive fechado, não podemos senão participar do frenesim que toma conta dele. Apesar de Michael ser um cretino, o seu entusiasmo é o nosso entusiasmo. Lisa é, também para nós, a promessa de que não estamos condenados à solidão, existe alguma coisa que escapa à mundanidade – o facto de ela ser bastante “mundana” não invalida a minha afirmação, pelo contrário. Como a boneca japonesa, ela é o objeto que suporta a fantasia.

Esta revelação tem implicações terríveis. Há uma violência oportunista escondida no desejo que é real. A cena em que Lisa canta o tema “Girls Just Want to Have Fun”, de Cyndi Lauper, é disto um bom exemplo. Se visto uma segunda vez, torna-se bastante claro como o pedido insistente de Michael para que ela cante, fale e suspire tem uma dimensão não só egoísta mas usurpadora que ameaça a leveza cómica e a ternura do momento. São muitos os que acusam Kaufman de tirar prazer da angústia em que enterra os seus personagens, e, parece-me evidente, existe em «Anomalisa» alguma coisa do existencialismo ateu de Sartre, alguma coisa da visão negra do filósofo sobre as relações amorosas, onde só existem duas posições a ocupar: a daquele que subjuga e a do que é subjugado. No entanto, é preciso não esquecer o brilho das palavras.

No final do filme, Lisa é “aquela que caminha ao sol”. A associação simultaneamente trágica e otimista de Lisa com o brilho ofuscante do sol é-nos dada neste plano através da fabulosa mise-en-sène. O derradeiro gesto de Kaufman e Johnson é, afinal, generoso e creio que esperançoso.

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