“Poesia Sem Fim” é a nova obra de Alejandro Jodorowsky, segunda de um ciclo de cinco filmes que representará uma autobiografia imaginária, já explorada no seu livro “A Dança da Realidade”.

Neste caso, o novo filme descreve quase passo a passo, os episódios dos capítulos “O acto poético” e alguns de “O teatro como religião”, interrogando as obsessões, inspirações e memórias do autor e de que forma convergiram no seu trabalho criativo, enquanto poeta…mais tarde argumentista de banda desenhada, realizador, mágico, palhaço e xamã…

Dedicado ao seu amigo produtor Michel Seydoux, que se afundou lado a lado com o realizador chileno, nas areias movediças da adaptação de "Dune" (Frank Herbert)… "Poesia sem Fim" começa onde o primeiro filme termina: na mudança da família de Alejandro de Tocopilla para Santiago, no Chile. Alejandro cresce com o seu pai castrador e operática mãe (literalmente), até se rebelar naquele que considera o seu primeiro grande ato poético: cortando à machada a representação da sua árvore genealógica, para depois crescer na descoberta do seu grande ato de afirmação… que seria enfrentar sozinho uma multidão de apoiantes do político Ibañez, antes de abandonar tudo e mudar-se para Paris.

Este percurso livre de se ser um jovem poeta em ação, que se vai livrando do poder infligido pelos pais, é uma teatralização carnavalesca da sua vida e do seu legado, com personagens do "underground" artístico chileno: por vezes circenses, como que saídas de um universo feliniano, com mulheres voluptuosas como a sua musa intempestiva; outras vezes grotescas, inebriadas por um glamour subversivo e um humor incomodativo.

Surrealista, com locais saídos de um livro de Kafka ou do “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, está repleto de detalhes “mágicos” de reforço psicológico das personagens, como figuras negras que movimentam objectos no cenário ou cabeças gigantes que enfrentam a consciência do jovem Jodorowsky. A fotografia de Christopher Doyle reforça a naturalidade de um universo fantasioso e a melancolia da banda sonora de Adan Jodorowsky (filho de Alejandro, também o actor principal deste filme), enleia-nos na hipnose egocêntrica do autor chileno.

“Poesia sem Fim” será avaliado de forma mais justa como parte integrante da pentalogia, pois falta algum fulgor e o poder presentes no anterior “A Dança da Realidade”. Mas também é mais terno e sofredor, até porque Alejandro cura feridas do passado, terminando o filme com uma reconciliação imaginada entre si e o seu pai.

Autor: Daniel Antero

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