A HISTÓRIA: O caixa de um banco descobre que é, na verdade, figurante num videojogo, e decide tornar-se o herói da sua própria história... que ele mesmo reescreve. Agora, a viver num mundo onde não há limites, ele está determinado a ser o gajo que salva o seu mundo, à sua maneira... antes que seja tarde demais.

"Free Guy: Herói Improvável": nos cinemas a partir de 19 de agosto.


Crítica: Daniel Antero

Ryan Reynolds é Guy, o caixa de um banco resilientemente otimista que saúda o seu peixe dourado todas as manhãs, veste sempre a mesma camisa azul e calças caqui, bebe o mesmo tipo de café e cumprimenta toda gente com a sua "catchphrase": "Não tenha um bom dia. Tenha um grande dia!". Tudo isto com um sorriso inocente pregado na cara, mesmo quando o seu banco é assaltado, dia após dia após dia após dia.

Isto até Guy compreender que não é de todo real, apenas um NPC ["non-playable character"] preso num videojogo. Tudo o que o envolve é ilusório, a sua existência desenhada num "loop" infinito. Ele é um código binário que forma um elemento acessório num "background", presente num universo povoado por jogadores/avatares, agentes do caos, protagonistas do videojogo "Free City".

O que distingue os jogadores dos NPCs é a utilização de óculos de sol. Quando Guy põe as mãos num desses pares de óculos, como que saídos do filme "Eles Vivem", de John Carpenter, vê a sua existência expandir-se, descobrindo um universo de "skins", celebrações, "power-ups", "loots", kits de energia e missões. Senciente, começará a questionar as regras deste mundo e a acreditar que o seu maior sonho se pode tornar realidade: encontrar a mulher da sua vida, que por acaso é a Molotov Girl, avatar de Millie (Jodie Comer), a designer do jogo que luta por reaver os direitos do mesmo.

Pelo caminho, Guy imbui-se de espírito de missão, e numa reviravolta que se demarca dos comportamentos mais banais dos videojogos, escolhe fazer o bem e proteger os restantes NPCs em vez de se juntar à anarquia e agir com violência... tornando-se uma estrela no mundo real.

Regozijo para os amantes de filmes e videojogos, o argumento de Matt Lieberman e Zak Penn para "Free Guy: Herói Improvável" é uma constância de humor intrincado e um frenesim de homenagens. O realizador Shawn Levy coloca o carisma de Ryan Reynolds ao centro de um jogo/filme onde a ação em primeiro plano e a carnificina que acontece em segundo plano nos fazem viajar pelo mapa da cidade, descobrindo uma parafernália de "easter eggs" que disputam a nossa atenção.

Enquanto a candura e a ingenuidade da personagem de Ryan Reynolds evocam filmes como "Elf o Falso Duende", "Força Ralph", "O Filme Lego" ou "The Truman Show - A Vida em Directo", a violência e jogabilidade lembra-nos "Fortnite" e "Grand Theft Auto", onde as perseguições de carros, explosões, tiroteios e o armamento infindável, guiam o nosso olhar para alusões cada vez mais surpreendentes. E não se podem perder os créditos finais para ver quantos "cameos" de grandes estrelas nos passaram ao lado!

Filme da Disney - cuja atividade de produção assenta muito em "remakes", sequelas e franchises - "Free Guy" defende o individualismo, o propósito, a criatividade na arte e o livre arbítrio. É curiosa e nada ingénua esta postura de Shawn Levy e Ryan Reynolds (aqui claramente mais do que apenas ator), que utilizam e exploram com sarcasmo vários elementos de diferentes propriedades intelectuais, gozando com a forma mercenária como a iconografia e a marca de um grande grupo, seja ele cinematográfico ou da indústria dos videojogos, são monetizadas, esgotadas e constantemente recicladas.

De modo nada inocente, o filme chega a rir de si próprio, escarnecendo de franchises como Marvel e "Star Wars" (também propriedades da Disney), e fazendo do seu vilão (o cada vez mais excêntrico e único realizador e ator Taika Waititi), um CEO que compra conceitos originais para depois os arquivar e valorizar mais as sequelas de sucesso financeiro garantido. Assim, com ironia, "Free Guy", um filme sobre videojogos que não se baseia num videojogo real, assume as teias meta existencialistas de um universo "cyberpop" onde os NPCs ganham vida, e de amorfos passam a agentes ativos, estabelecendo uma nova ordem no sistema virtual e real.

Com este jogo de camadas, argumentistas, realizador e protagonista constroem uma ação-comédia que simplifica os conceitos de simulação e satiriza a indústria. Mas no seu núcleo, este é um filme sobre empoderamento, sobre crença e amor, sobre a vontade que o normal "Guy" tem de sair do segundo plano e agarrar o papel de protagonista da sua própria vida.

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