A HISTÓRIA: O comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, e a sua esposa Hedwig, esforçam-se para construir uma vida de sonho para a sua família numa casa e jardim próximo do campo.

"A Zona de Interesse": nos cinemas a partir de 18 de janeiro.


Crítica: Francisco Quintas

É natural que filmes de guerra tenham dificuldade em se desapegar da agenda do país de origem. Fenómenos como a Segunda Guerra Mundial não aconteceram há muito tempo e é compreensível que uma nação manchada pela derrota e por ideais nocivos se note indecisa sobre que posição tomar adiante.

A verdade é que aquilo que o Ocidente e o resto do mundo esperam dos alemães, por muito mais tempo, é um severo autoflagelo, um sentimento de culpa duradouro por aquilo que aconteceu. Meios como a Sétima Arte, uma potente arma de reflexão, propõem-se a reconhecer e examinar as causas e consequências dos mais variados idealismos. Das mãos da Alemanha, o Cinema enriqueceu com, por exemplo, “Das Boot - A Odisseia do Submarino 96” (1981), de Wolfgang Petersen, e, mais recentemente, “A Oeste Nada de Novo” (2022), de Edward Berger, original da Netflix.

Portanto, o que esperar de um filme como “A Zona de Interesse”, integrante da última edição do Festival de Cannes?

Através da fotografia geométrica, quase burocrática, de Lukasz Zal e da montagem perspicaz de Paul Watts, que perfeitamente expressam a natureza opressora em questão, seriam poucos os caminhos a esperar da obra do inglês Jonathan Glazer, na sua primeira longa-metragem em quase dez anos, após “Debaixo da Pele” (2014).

Partindo da premissa de uma família alemã de classe alta, condição elevada pelo patriarca militar, operacional do recém-erguido campo de concentração de Auschwitz, o espectador acostumado com este tipo de histórias contaria os segundos até que “A Zona de Interesse” se tornasse numa zona de reconhecimento da própria ignorância. Fosse este um filme como os demais, as personagens seriam obrigadas a destapar a venda diária do privilégio que habitam, a escassos metros de uma das maiores barbáries da História. Mas não é este um filme como os outros.

“A Zona de Interesse” é um filme complicado, despreocupado em oferecer conforto na forma de uma qualquer moral de redenção ou culpabilidade. Reconhece que a família, desde a criança inocente, que vai à escola e mergulha na piscina em dias de verão, à esposa autoritária e indisposta a abdicar do seu estilo de vida, é oriunda de um contexto ingrato e cruel, de uma apatia absolutamente assustadora.

Baseado no romance do inglês Martin Amis, o enredo não envereda por grandes contornos. Como se, ao seu lado, não estivesse um palco de miséria e violência, esta família vive o seu dia-a-dia, convive com domésticas e criados judeus soterrados de pavor, recebe visitas de semelhante estatuto social e económico e lida com o muro de arame farpado como se de um detalhe de cenografia se tratasse. Neste departamento, não é possível encontrar elogios dignos da mistura de som, que nunca nos deixa esquecer o sofrimento que jaz nos campos gélidos e lamacentos de Auschwitz.

Não obstante as fortíssimas interpretações de Sandra Hüller e Christian Friedel, torna-se difícil, até certo ponto, simpatizar com estas lides. A desumanidade é uma doença contagiosa, é certo, mas quando as personagens tomam decisões ou proferem determinadas frases, o espectador perde razões para manter o esforço de sequer tentar compreendê-las.

Ademais, algumas sequências captadas por visão noturna, conjugadas com a música de Mica Levi, por mais magníficas que sejam, por pertencerem à ambiência psicadélica de Jonathan Glazer, uma marca autoral, destoam, por vezes, da crueza d´ “A Zona de Interesse”.

Ainda assim, perfazendo o clima sociopolítico contemporâneo que, por infelizes e urgentes razões, proporciona obras artísticas de se lhes tirar o chapéu, o filme é um dos mais necessários do ano. Nem sempre o cinema converge em contentamento.

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