Foi um Coliseu a abarrotar que recebeu, na passada sexta-feira, os dois fadistas. O espetáculo foi uma continuação do evento apresentado no CCB, em Lisboa, em outubro, e que pretendia celebrar o Fado como Património Imaterial da Humanidade. O público, de todos as idades, eufórico, rendeu-se às vozes de António Zambujo e Ana Moura, que não pararam de o mimar ao longo da noite. Houve fado, mornas, música popular portuguesa e até um interlúdio musical. Porque, afinal, o fado é como um mundo de muitas canções.

Quase 20 minutos após a hora marcada, António Zambujo, à guitarra, e Ana Moura entoaram os versos de “Despiu a Saudade”, escrita por Zambujo para a voz da fadista e que faz parte do mais recente trabalho desta, “Desfado”. “Boa noite! Finalmente aqui”, disse Zambujo a um público que não se cansou de aplaudir. “Este espetáculo teve origem num pedido do Museu do Fado, no ano passado, a propósito da eleição do Fado como Património Imaterial da Humanidade. Mas, na altura, o espetáculo no CCB, em Lisboa, esgotou com muita antecedência e ficou sempre a sensação de que muita gente ficou de fora”, acrescentou o músico. “Esta noite é uma continuação desse espetáculo. Obrigado por terem vindo”, finalizou Zambujo, antes de continuar com “Amor de Mel, Amor de Fel”, da autoria de Carlos Gonçalves e imortalizado por Amália Rodrigues, e que Zambujo incluiu no álbum “Outro Sentido”, de 2007. Zambujo continuou, depois, sozinho num fado da sua autoria, “Eu Já Não Sei”, do mesmo álbum.

O público ia ficando cada vez mais rendido à voz e à personalidade brincalhona do cantor, que não parou de dizer piadas e que continuou sozinho no tema seguinte, “Fado Desconcertado”, da sua autoria, que integra o álbum “Quinto”, de 2012.

Depois foi a vez da voz de timbre forte de Ana Moura roubar o protagonismo a Zambujo, se é que se pode falar de protagonismos numa noite em que até os músicos – e eram muito em palco – tiveram o seu momento. “Caso Arrumado”, do seu álbum “Leva-me aos Fados”, de 2009, e “Porque Teimas Nessa Dor” foram os temas interpretados.

Nesta altura, já vários músicos tinham subido ao palco. Primeiro, os tradicionais acompanhantes do fado: guitarra portuguesa, viola de fado e viola, além de contrabaixo. Mais tarde, teríamos ainda percussão, sintetizador, clarinete, saxofone, o cavaquinho de John Luz e os tambores de Pedro Calado.

Ana Moura seguiu pela noite com “Vestido Negro Cingido”, antes de agradecer ao público e de falar do prazer enorme que era estar no Porto. “Eu e o António queríamos também contar uma história, por isso começámos com um fado que ele escreveu para o meu último trabalho, o 'Despiu a Saudade', do 'Desfado'. Nós já nos conhecemos há uns bons anos e começámos os dois por cantar fados tradicionais numa casa de Lisboa, o Senhor Vinho. Mas há muitas influências no fado", disse. "E estas influências não têm fronteiras”, continuou Zambujo, justificando assim a subida ao palco do seu "brother, John Luz”, músico cabo-verdiano que acompanhou Zambujo e Ana Moura nos dois temas que se seguiram, duas mornas diretas de Cabo Verde: “Ncria Ser Poeta”, de Paulino Vieira, e “Lua Nha Testemunha”, de Cesária Évora. Ritmos quentes que tornaram ainda mais colorida a noite que até aí já se havia enchido de muitas cores e sons.

“É tão bom cantar mornas, que no meu próximo disco vou só cantar mornas”, afirmou Zambujo no final da primeira. Na segunda morna, Zambujo levou delicadamente Ana Moura para um dos lados vazios do palco, para dançar com ela, sob os assobios e os piropos do público. “Com uma dança destas, uma pessoa canta com mais vigor”, riu-se Zambujo.

E outra das canções do fado é a música popular portuguesa, à qual aquele foi também buscar algumas das suas raízes. “Outra das nossas influências é a música popular portuguesa e um dos maiores nomes da nossa música foi Zeca Afonso, mas hoje vamos lembrar outro nome grande da nossa música, Fausto", declarou. O público mais velho emocionou-se e cantou em coro a conhecida “O Barco Vai de Partida”. Sem dúvida, um dos momentos mais emocionantes da noite.

Ana Moura e António Zambujo abandonaram o palco, que ficou entregue aos músicos - Mário Costa, bateria; John Luz, cavaquinho; José Moreira, baixo; João Moureira, trompete; José Miguel Conde, clarinete; Pedro Soares, viola de fado; Ângelo Freire, guitarra portuguesa; José Carlos, teclas; e Ricardo Cruz, contrabaixo - que, durantes uns minutos, foram os protagonistas da noite.

Foi, então, a vez de Zambujo subir sozinho ao palco, apenas acompanhado por sopros e contrabaixo. A canção “A Tua Frieza Gela”, do seu álbum “Guia”, de 2010, emocionou o público, que parecia hipnotizado pela voz e pela música, sobretudo quando, no final, entoou algumas notas de “Cucurrucucu Paloma”, cantada por Caetano Veloso. E Zambujo continuou em palco com “Algo Estranho Acontece”, do seu álbum “Quinto”, altura em que Ana Moura entrou para cantar um tema de Zambujo, “Flagrante”.

Sai ele, e fica ela com um tema da autoria de Miguel Araújo, vocalista dos Azeitonas, para o seu álbum “Desfado”, “Fado Alado”, num dos momentos mais bonitos e intimistas da noite.

Novamente em palco, Zambujo cantou um fado de Ana Moura, “Os Búzios”, da autoria de Jorge Fernando, antes de os músicos entrarem para acompanharem os fadistas em mais um fado tradicional, “Canto o Fado”, da autoria de João Nobre. O cavaquinho de John Luz acompanhou o tema seguinte, numa noite que se aproximava do fim.

“Esta foi a primeira música que Miguel Araújo fez para outra pessoa. Grande Miguel Araújo!”, exclamou. O público aplaudiu o músico e compositor, levando Zambujo a brincar, antes de arrancar com os versos de “Reader´s Digest”: “Pronto, agora já se podem virar para a frente”.

Já se pressentia o fim e Ana Moura aproveitou para apresentar os músicos em palco. “Quer o destino que eu não creia no destino/ E o meu fado é nem ter fado nenhum/ Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido/ Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum”, canta, depois, Ana Moura os versos de “Desfado”.

O Coliseu parece pequeno para albergar tantas emoções, tantas canções e tanta alma e, quando os músicos se despedem, as palmas não cessam. Já no encore, Zambujo regressa sozinho ao palco e, aos primeiros acordes de “Lambreta”, o público canta em coro. O músico para e deixa o público cantar. Pede apenas que acendam os isqueiros e alguém no público, perante o silêncio, grita: “Dá-lhe, António!”. E António dá-lhe, com alma, só com o som da guitarra, numa canção que é uma das mais queridas do seu público. A seguir, Ana Moura ‘chora’ um dos seus temas mais bonitos: “Sou do Fado, Sou Fadista”. Para último, um tema que une todos os músicos e os dois fadistas em palco, num momento que revela as duas maiores cumplicidades da noite: entre Zambujo e Ana Mouro e entre os músicos e o público.

Foi um daqueles espetáculos que nos faz perceber por que o fado continua a conquistar cada vez mais pessoas: há uma alma, uma ligação, quase um destino, nas letras e nas composições, que parece ser feita para unir as pessoas. E foi isso que se sentiu sexta-feira à noite.

Helena Ales Pereira

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