Projectada para o espaço mediático após ter "roubado", com todo o mérito, o galardão de Best New Artist a Justin Bieber, na passada edição dos Grammy Awards, a até então por muitos desconhecida cantora e contrabaixista já havia editado três álbuns. "Chamber Music Society", o último dos três, deu o nome e o mote para este espectáculo, que surge da vontade de conjugar a formação e as influências da artista. Esperanza Spalding começou por aprender violino, daí que a música clássica seja predominante na formação instrumental da cantora, apesar desta ter transitado para o jazz. E foi exactamente a um concerto assumidamente jazz que o público do Coliseu assistiu, em que a componente clássica foi acrescentada pelo trio de cordas composto por Sara Caswell no violino, Lois Martins na viola de arco e Jody Readhage no violoncelo.

No lado direito do palco, ainda com a cortina fechada, podia ver-se uma poltrona ladeada por um candeeiro de pé e uma pequena mesa onde estavam pousados um jarro com flores e uma garrafa de vinho, revelando um cuidado cénico acrescido. Depois, apagadas as luzes, recebida com uma salva de palmas, Esperanza Spalding entrou em cena: acendeu o candeeiro, despiu a gabardina, serviu-se do vinho, descalçou os sapatos e recostou-se confortavelmente, de copo na mão, enquanto a cortina se ia abrindo, mostrando os músicos e instrumentos que a acompanhavam.

Baseado quase na íntegra em "Chamber Music Society", foi Little Fly, poema musicado de William Blake, a abrir delicadamente o concerto, seguindo-se Knoledge of Good and Evil, a apelar ao jazz mais experimental. Numa alusão aos ritmos latinos da América do Sul, foram apresentados Chacarera, tema composto especialmente para a intérprete pelo pianista argentino Leo Genovese, que acompanha a tourné, e WIld is the Wind, numa versão tango. Em Apple Blossom, gravada para o álbum num dueto com Milton Nascimento, Esperanza abandonou o contrabaixo e, sentada numa cadeira, fez uma interpretação teatralizada, acompanhada por gestos e expressões, como quem partilha uma história com os amigos. Um diálogo de vocalizações deu lugar a uma versão bilingue com uma pronúncia irrepreensível de Inútil Paisagem, de Antonio Carlos Jobim, cantada a meias com Leala Cyr, responsável pelos coros. Winter Sun e Really Very Small ditaram o fim da primeira parte.

A acção voltou-se novamente para a já esquecida poltrona, no canto direito do palco: a artista bebeu mais um pouco de vinho, calçou os sapatos, vestiu o casaco e apagou a luz do candeeiro, enquanto a cortina se fechava lentamente. O público levantou-se e aplaudiu.

No regresso, os agradecimentos em português ao público a quem até então não se havia dirigido. O encore foi composto por Midnight Sun e um tema novo, "divertido, diferente, experimental", que disse chamar-se "Não tem Casa". Uma mescla de ritmos, com incursões orientais, onde se destacou o solo de bateria de Richie Barshay, finalizou a actuação heterogénea, onde num pano de fundo jazz se incorporaram diversas linguagens musicais.

Texto: Ariana Ferreira
Fotografias (tiradas no Coliseu de Lisboa): Paulo Tavares

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