Dois dias depois da sua estreia histórica na televisão americana, os Beatles enfrentaram a neve para ir de comboio de Nova Iorque a Washington, onde realizaram o seu primeiro concerto na América do Norte. Quase 8 mil fãs estavam presentes, ignorando o frio de uma terça-feira à noite numa sala sem aquecimento e sem nenhuma semelhança com o circo romano, o Coliseu, de quem herdou o nome.

"Foi fenomenal", lembra Patricia Mink, na altura com 20 anos e funcionária de uma seguradora de Washington. "Lembro-me de estar sentada na sala e dizer 'não acredito", declarou à AFP.

Cinquenta anos depois, no dia 11 de fevereiro, também uma terça-feira, cerca de 3 mil pessoas devem assistir a um concerto comemorativo do aniversário antes que o imóvel onde ficava a sala, que se tornou um parque de estacionamento, seja transformado em lojas e escritórios.

BeatleMania Now, um grupo que afirma ser "a melhor orquestra que presta homenagem aos Beatles", vai reproduzir todas as 12 faixas do espetáculo histórico, de "Roll Over Beethoven" a "Long Tall Sally", passando por "I Saw Her Standing There" e "She Loves You".

A primeira parte do concerto será conduzida pelo mesmo artista que há meio século conheceu os Beatles na Grã-Bretanha, em 1963, Tommy Roe. "Cantei duas músicas, Sheila e Everybody", lembrou numa entrevista à AFP, "e depois os Beatles subiram ao palco e todos ficaram em delírio".

Delírio num ringue de boxe

Cerca de 73 milhões de americanos, um recorde na época, assistiram na televisão ao "Ed Sullivan Show" dois dias antes, a partir de Nova Iorque, que pela primeira vez foi exibido ao vivo. O grupo seguiu então para Washington e regressou para dois espetáculos a 12 de fevereiro no prestigiadoCarnegie Hall, em Nova Iorque.

Washington, ainda traumatizada assim como o resto do país pelo assassinato do presidente John F. Kennedy, em novembro de 1963, já havia sido invadida pela Beatlemania.

Um DJ da estação de rádio local WWDC, Carroll James, transmitiu "I Want to Hold Your Hand", um single trazido de Londres pelo comissário de bordo de uma companhia aérea. O sucesso foi imediato.

Na época, a "música americana, o rock'n'roll, era bastante conservador", disse à AFP Covach John, que ensina história do rock na Universidade de Rochester, em Nova Iorque. "Quando os Beatles chegaram, de alguma forma fizeram com que os americanos demasiado jovens para serem fãs da música de 1956 ou 1957, de artistas como Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e Elvis Presley, redescobrissem o rock", explica.

Mike Mitchell, então com 18 anos, tirou algumas fotos da noite, uma das quais foi leiloada por 68500 dólares em 2011 pela Christie's. "O palco estava mesmo ali no meio", lembra ao percorrer o agora estacionamento, "do tamanho de um ringue de boxe, porque era um ringue de boxe". Os melhores lugares custaram 4 dólares, o que equivale a 30 dólares atualmente.

Naomi Banks, que acredita ter sido a única negra a assistir ao concerto naquela noite, conseguiu bilhetes de graça com o proprietário do Coliseum, Harry Lynn, um dos seus vizinhos. "Havia jovens em todos os lugares", lembra ela. "O som não era muito bom, mas porque eram os Beatles, porque eram eles que estavam a cantar, foi fantástico", lembra.

O concerto de Washington foi gravado a preto e branco e transmitido no mês seguinte nos cinemas americanos.

"Cinquenta anos depois fico contente de pensar que estava lá", diz Trish Banker, um amigo de Patricia Mink. "Foi simplesmente fantástico".

@AFP

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