O segundo dia do festival Marés Vivas antevia-se bastante concorrido, algo que milhares de pessoas foram confirmando a pouco e pouco.

A noite começou com
A Silent Film. A banda, já conhecida por terras lusas (a sua tournée passou por Portugal em Maio) não tinha tarefa fácil: a actuação pela hora de jantar e o facto de abrirem as hostilidades do Palco TMN tornaram o concerto bastante morno, ainda que cativante.

A banda apresentou o seu álbum de estreia, "City That Sleeps", culminando o concerto com o sucesso comercial "You Will Leave A Mark" naquele que foi possivelmente o momento mais aclamado pelo público. Uma hora bastante agradável mas que, ainda assim, não conseguiu conquistar o fim de tarde da foz.

David Fonseca foi o artista que se seguiu. Acompanhado do setup de luzes e lista de canções de que tem feito parte os espectáculos da tour promocional do seu mais recente álbum Between Waves, o showman nacional não desapontou.

A cerca de uma hora de espectáculo audiovisual (com direito a confétis) pareceu até surpreender uma parte da audiência que esperava pelo acto seguinte, com "A Cry 4 Love", "Our Hearts Will Beat As One" e a versão electrónica de "This Raging Light" a criar um ambiente incrível.

Misturando temas seus com versões de clássicos dos anos 80 e 90 - "Girls Just Wanna Have Fun" (Cyndi Lauper), "Everybody's Got to Learn Sometime" (The Korgis) foram alguns dos exemplos - David continua a demonstrar uma qualidade e capacidade de transformação ímpares, e provou novamente que é possível produzir música pop de alta qualidade.

O acto seguinte chamava-se
Placebo, banda de culto e que cativa já gerações distintas. No relativamente longo período morto de montagem de palco, era notório o sentimento de antecipação das filas da frente, debatendo set lists possíveis e preparando toda uma panóplia de cartazes para o acontecimento.

Brian Molko e a sua equipa surgiram de rompante. Os primeiros ecos de "Nancy Boy" foram suficientes para uma ovação impressionante, e ao longo de cerca de uma hora e trinta minutos de euforia, ora relembrando temas antigos como "Ashtray Heart" ou "Every You, Every Me", ora saltando para a sua sonoridade actual, menos crua e com mais corpo, com "Meds" e o recente "Battle For The Sun". "All Apologies" dos extintos Nirvana passou também pelo palco, num dos vários momentos altos da noite.

Ainda que pouco comunicativos a início, justificaram em crescendo a enchente que se mobilizou para os ver e que, a cada canção que passava, mais se deixava incendiar pelo poder e energia daquele que continua a afirmar-se como um dos trios de topo da indústria musical.

Após
Placebo, foram muitos os que deixaram o recinto.
Peaches, artista desconhecida para muitos e que, no fundo, acabou por ser cabeça de cartaz, não parecia inspirar a confiança musical dos grupos de fãs que se deslocavam palco fora.

Preparava-se a surpresa da noite. Apresentando uma espécie de cruzamento entre Lady Gaga e uma festa de acid house,
Peaches tomou as rédeas do palco com uma força tal que quase fez esquecer que minutos antes por lá tinha passado uma das bandas mais marcantes das últimas décadas.

De aspecto arrojado e visual inconstante durante toda a performance, Merrill Beth Nisker nunca deixou de parte a sua irreverência, e, juntamente com o seu grupo, foi um autêntico terramoto musical numa altura em que muitos se preparavam para ir para casa ou simplesmente relaxar no recinto. Por entre temas como "Billionare", "I Feel Cream" ou o electrizante "Shake Yer Dix", fez uma caminhada - em pé - sobre o público, deixando no ar a frase do dia: "Jesus walks on water,
Peaches walks on you". Momento épico quando canta em duo "Billionaire" com uma representação virtual de Shunda K., projectada numa toalha de banho que fazia parte das vestes utilizadas para o tema. Fantástico momento também a fechar o festival, quando incentiva a plateia a tirar a t-shirt (e com relativo sucesso!) ao som de "Set It Off".

Terminou assim com chave de ouro o segundo dia de Marés Vivas, um dia marcado sobretudo pela qualidade dos intervenientes e pela adesão massiva de pessoas ao recinto de Vila Nova de Gaia.

Fotografia e Texto: Sérgio Castro