
As luzes são gradualmente apagadas, na companhia de uma voz grave que apresenta a cantora. Numa tela escura, onde pode ler-se apenas “Verdade Uma Ilusão”, começam a projetar-se padrões variados. E chega-nos, então,a fina e delicada voz de Marisa, escondida por detrás da tela gigante, e com ela as primeiras palavras de O Que Você Quer Saber de Verdade. As palmas não se fazem esperar.
No palco, são sete os músicos que acompanham Marisa Monte, ocupando-se a maioria das cordas – especialidade que partilham com a artista que, de guitarra em mãos e ainda tapada pela opaca tela, passa, em viva voz, a Descalço no Parque. E num instante se dá a primeira ovação da noite. A tela sobe, Marisa surge pujante, de braços elevados no ar, de sorriso branco e vestido de renda preto, deambulando e dançando pelo palco. “Muito obrigada! Boa noite! É uma alegria muito grande estar aqui no Porto, neste espaço tão lindo, onde somos sempre tão bem recebidos”, cumprimenta, seguindo para Arrepio, que interpreta com simplicidade e modéstia, de guitarra ao colo, enquanto atrás de si correm projeções de flores ao pôr-do-sol e a banda toca em contra-luz.
Ilusion e Depois acendem, pouco depois, uma plateia pouco acordada, deixando o Coliseu em histeria. Em jeito de karaoke, a projeção assume o propósito sing-along, e a plateia rejubila, não deixando uma palavra por cantar, ecoando o português do Brasil pela sala lotada. Seguem-se Amar Alguém e Diariamente, com a tela a projetar, agora, as palavras “Hoje, Amanhã, Ontem”, numa sequência a fazer lembrar uma qualquer fórmula química, com uns quantos electrões conectados entre si. Infinito Particular traz o 3D ao Coliseu, com projeções de bolas luminosas que parecem ocupar toda a sala, com o efeito a permanecer em E.C.T., mas com as bolas a darem lugar a palavras, que saltam de parede em parede, invadindo o palco. Escrita, originalmente, por Marisa Monte e Carlinhos Brown, foi tornada famosa por Cássia Eller, que pediu a Marisa para gravar a canção para um disco seu. Os seus ritmos orientais remetem-nos para um qualquer país árabe.
“Tudo bem aí?”, ouve-se. “Para mim, isso ‘tá uma delícia”, garante, arrancando palmas dos presentes. Eller sempre foi uma inspiração para ela, assegura, confessando sentir saudades da musa da MPB. “Como eles dizem, saudade não é quando a gente sente falta de alguém, é quando a gente sente a presença de alguém”, continua, abrindo caminho para De Mais Ninguém, Beija Eu e Para Ver as Meninas, que pediu, naturalmente, um sambinha no pé, que acordou o públicojá embalado.
Mais tarde, confessando-se uma fã incondicional de Mina Mazzini, presenteou o público com uma versaõ de Sono Come Tu Mi Vuoi, que surgiu de mão dadas com Ainda Bem, cuja história fez questão de partilhar: “No ano passado, eu estava a terminar de gravar o meu disco e decidi que queria cantar essa música com a Mina. Então, enviei para ela por e-mail e ela amou… Só que gostou tanto, que pediu para gravar para o CD dela… E aí eu acabei cantando sozinha mesmo!”. O público solta algumas gargalhadas e Marisa dança pelo palco.
Verdade Uma Ilusão, com jogos de sombras e silhuetas misturadas com luzes estreladas que lembram uma qualquer galáxia distante, ouve-se antes de A Sua, Gentileza e Pensador. Você É Assim, canção retirada dos áureos tempos de Tribalista, arranca, logo a seguir, mais uma rodada de palmas e assobios e, claro, um sing-along perfeito, com muito pouco desafino. Não Vá Embora surge em jeito de súplica para um concerto mais longo.
Um bater assertivo e violento de pés faz, entretanto, abanar o chão do Coliseu, num pedido de retorno desesperado. Marisa faz-se de difícil perante um público impaciente, que, a certa altura, se vê obrigado a recorrer ao habitual “Só mais uma”. E lá reaparece Marisa Monte que, antes de se lançar a Amor I Love You, ainda agradece a “noite maravilhosa”. “Eu adoro quando vocês fazem o back vocal e hoje ninguém fez”, queixa-se, a propósito do último tema. “Faz para mim…”, pede. E o público, claro, acede.
Já Sei Namorar leva-nos de volta a 2003, mas deixa-nos de novo sem Marisa, que abandona o palco da maneira como entrou nele: com “Verdade Uma Ilusão” na tela e um desejo de mais, muito mais.
Alinhamento
O Que Você Quer Saber de Verdade
Descalço No Parque
Arrepio
Ilusion
Depois
Amar Alguém
Diariamente
Infinito Particular
E.C.T.
De Mais Ninguém
Beija Eu
Para Ver As Meninas
Sono Come Tu Mi Vuoi
Ainda Bem
Verdade Uma Ilusão
A Sua
Gentileza
Pensador
Você É Assim
Não Vá Embora
Encore
Amor I Love You
Já Sei Namorar
Texto: Marta Ribeiro
Fotografia: Anais F. Afonso (à memoria de Ricardo Carvalho)
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